Mesmo após a diminuição dos casos de Covid-19, o mundo ainda enfrenta um grande problema. A obesidade é considerada a pandemia do século XXI e, apesar dos inúmeros impactos que pode causar, a gravidade dessa condição não parece preocupar muitas pessoas. Em um mundo onde cresce a tendência de adotar um estilo de vida mais saudável, causa estranhamento que a obesidade ainda seja um desafio tão expressivo.
Diante desse cenário, em que a obesidade se mantém como uma das maiores ameaças à saúde pública, é compreensível que a busca por métodos eficazes de controle de peso tenha ganhado destaque. No entanto, a dificuldade em manter hábitos saudáveis tem levado muitas pessoas a procurar soluções imediatistas. É nesse contexto que medicamentos como a semaglutida ganharam notoriedade — não apenas como ferramentas terapêuticas, mas como atalhos para o emagrecimento — muitas vezes utilizados fora de suas indicações. O que deveria ser um avanço no tratamento da obesidade e do diabetes melito tipo 2 acabou se transformando em um produto de consumo estético, mascarando a real complexidade do problema.
O Ozempic e seus similares, desenvolvidos para o tratamento do diabetes tipo 2, passaram a ser vistos como atalhos rápidos — e, em determinadas circunstâncias, perigosos — para o emagrecimento. O que havia sido criado para tratar uma condição clínica foi rapidamente apropriado por uma cultura obcecada pela magreza, reforçada pelas redes sociais e pela pressão estética em torno do “corpo ideal”.
Com a facilidade de acesso, farmácias tornaram-se vitrines de emagrecimento, e a linha entre tratar a obesidade e atender a um desejo estético se perdeu. A saúde passou a ser vista como um produto e a semaglutida, como uma “solução mágica” vendida sem o devido critério.
Estudos recentes mostram que o uso sem acompanhamento médico pode levar a complicações como distúrbios gastrointestinais, episódios de hipoglicemia e até problemas cardiovasculares. Ainda assim, muitos seguem utilizando o medicamento de forma leviana, como se não houvesse riscos — e é aí que o feitiço começa a virar contra o feiticeiro.
Em vez de promover a saúde e bem-estar, o medicamento sofreu uma grave distorção e hoje é um dos pontos que mais alimenta uma cultura obcecada pela magreza. A banalidade não está apenas no uso ou na venda, está, acima de tudo, em uma sociedade que vende magreza como sinônimo de saúde.
Marcela Nogueira Rissardi
Maria Eduarda Poleto Kurosaki
Estudantes do Curso de Farmácia do Instituto Federal do Paraná (IFPR)

Jornal A Folha