E talvez uma das maiores injustiças que cometemos nas relações humanas seja transformar um comportamento momentâneo em uma definição permanente sobre alguém.
Uma pessoa perde a paciência e imediatamente passa a ser considerada explosiva. Outra demora para tomar uma decisão e recebe o rótulo de indecisa. Alguém prefere o silêncio e logo é chamado de arrogante. Quem demonstra sensibilidade é considerado fraco. Quem se posiciona com firmeza pode ser visto como autoritário.
Mas será que um comportamento isolado é suficiente para definir toda a complexidade de um ser humano?
Será que aquilo que alguém demonstra em um momento de cansaço, medo, frustração ou sofrimento representa, necessariamente, quem essa pessoa é?
O problema começa quando deixamos de observar comportamentos e passamos a transformar pessoas em rótulos.
O comportamento humano é muito mais complexo. Nossa capacidade de autorregulação varia, e nem toda reação inadequada decorre simplesmente de pouca inteligência emocional.
O contexto, o esgotamento, as experiências anteriores e até as condições de saúde podem influenciar significativamente a maneira como reagimos.
Ainda assim, existe uma verdade que merece nossa atenção: quanto mais desenvolvemos autoconhecimento e habilidades de regulação emocional, maiores podem ser nossas possibilidades de responder de maneira consciente diante das dificuldades.
E isso faz uma diferença extraordinária na maneira como construímos nossa reputação e nossos relacionamentos.
Porque as pessoas não conseguem enxergar diretamente nossas intenções.
Elas observam nossas atitudes.
Você pode ter um coração generoso, mas, se frequentemente responde com agressividade, talvez seja reconhecido pela maneira como trata os outros.
Pode desejar profundamente ser compreendido, mas, se interrompe constantemente as pessoas, poderá ser percebido como alguém que não sabe ouvir.
Pode ter boas intenções, mas, se costuma agir impulsivamente, suas atitudes podem produzir consequências muito diferentes daquelas que você gostaria.
E aqui existe uma reflexão importante: Nem sempre somos responsáveis pelos rótulos que as pessoas colocam em nós, mas precisamos reconhecer a responsabilidade que temos sobre os comportamentos que repetimos.
Isso não significa aceitar julgamentos injustos. Existem pessoas que nos rotulam por preconceito, desconhecimento, interesses pessoais ou interpretações equivocadas. Nem toda crítica recebida representa uma verdade sobre quem somos.
Entretanto, também seria um erro ignorar completamente a maneira como nossos comportamentos afetam aqueles que convivem conosco.
Se diferentes pessoas, em situações distintas, apontam repetidamente uma mesma dificuldade, talvez valha a pena investigar o que existe por trás desse padrão.
Não para aceitar passivamente um rótulo, mas para compreender se há algo que precisamos desenvolver.
Somos histórias, experiências, aprendizados, contradições, possibilidades e transformações.
E, enquanto estivermos vivos, teremos a oportunidade de continuar desenvolvendo a maneira como pensamos, sentimos e nos relacionamos.
No final, talvez o maior sinal de inteligência emocional não seja conseguir mostrar ao mundo que você está sempre certo, mas reconhecer que ainda existem muitas coisas dentro de você que precisam ser compreendidas, cuidadas e desenvolvidas.
Afinal, você não é apenas aquilo que sente.
Não é apenas aquilo que pensa.
E também não precisa ser definido exclusivamente pela maneira como reagiu em um momento difícil.
Você é, também, aquilo que escolhe aprender, transformar e construir a partir de agora.
E nunca se esqueça: O rótulo que colocam em você pode dizer muito sobre como interpretam suas atitudes, mas não tem o poder de determinar todas as possibilidades de quem você ainda pode se tornar.
Júnior Chisté, psicólogo, “escritor e palestrante. “Atende através de “vídeo-chamadas, “(49) 9 9987 9071.

Jornal A Folha