Corpos próximos. Olhos fechados. Sorrisos serenos. Ali não há pressa, não há disputa, não há aparência. Há pertencimento.
Em um tempo marcado pela aceleração, pelo excesso de informações e pela exigência constante de produtividade, a solidão tornou-se uma das experiências mais silenciosas — e mais dolorosas — da nossa geração. Não falamos muito sobre ela. Disfarçamos. Preenchemos a agenda. Respondemos mensagens. Seguimos em frente.
Mas, no íntimo, muitos carregam a sensação de estar caminhando sozinhos.
A comunidade surge, então, como abrigo.
Abrigo não é apenas um lugar físico. É um espaço emocional. É onde podemos baixar as defesas. Onde não precisamos provar nada. Onde somos aceitos na inteireza — com nossas forças e nossas fragilidades.
O educador brasileiro Paulo Freire escreveu:
“Ninguém caminha sem aprender a caminhar.”
Aprendemos com o outro. Crescemos com o outro. Nos fortalecemos no encontro.
Quando fazemos parte de uma comunidade verdadeira, algo dentro de nós se reorganiza. A ansiedade encontra pausa. O medo encontra escuta. A alegria encontra eco. A caminhada deixa de ser solitária e passa a ser compartilhada.
A solidão moderna não se resolve com mais conexões digitais, mas com vínculos reais. Com encontros onde há troca de olhares. Com espaços onde o silêncio também é acolhido. Onde alguém percebe quando você não está bem.
Pertencer é saber que sua presença importa.
Que seu silêncio é escutado.
Que sua ausência faz falta.
Em uma sociedade que valoriza a autonomia extrema, escolher viver em comunidade é um gesto de coragem. Significa confiar. Significa abrir-se. Significa permitir que outros participem da nossa história.
O abraço coletivo simboliza algo maior do que proximidade física. Ele representa apoio. Representa segurança. Representa força compartilhada.
Talvez este seja o maior antídoto para os tempos atuais: construir — ou reconstruir — espaços de convivência onde as pessoas possam ser verdadeiras. Onde o riso seja espontâneo. Onde o cuidado seja mútuo.
A vida se torna mais leve quando dividida.
A dor diminui quando compartilhada.
A alegria se multiplica quando celebrada em grupo.
Que possamos criar mais comunidades e menos muros.
Mais encontros e menos distâncias.
Mais abrigo e menos isolamento.
Porque ninguém foi feito para caminhar sozinho.
E no fim do dia — como naquele abraço iluminado pelo pôr do sol — o que realmente nos sustenta são as mãos que permanecem dadas.
Vera Lucia Figueiredo Necher
Professora, escritora e
idealizadora do projeto
Rich’s Volleyball Mulheres 40+, em Palmas(PR). @veralucia1234_
Jornal A Folha