Absorção é a entrada do fármaco na corrente circulatória. Distribuição é a saída do fármaco da corrente circulatória e posterior entrada nos órgãos. Metabolização é um processo enzimático que modifica a estrutura química do fármaco, facilitando a sua excreção. E, finalmente, excreção é a retirada do fármaco do organismo.
Também chamada de eliminação, a excreção ocorre por diferentes vias. A principal é a via renal, ou seja, o fármaco (na forma de metabólito) entra na composição da urina, o que permite que seja removido do organismo. No entanto, há vias de eliminação secundárias. Praticamente todo e qualquer fluido ou outro tipo de material biológico que seja produzido pelo corpo (e que deixa esse local) pode servir de via de eliminação de fármacos. Os fármacos podem sair nas fezes, no suor, na lágrima, na saliva, no esperma, no sebo, na cera, na bile, no catarro, no leite, no ar exalado etc. Mas todas essas vias são consideradas secundárias porque, mesmo juntas, respondem pela eliminação de uma pequena parcela do fármaco. A maior parte será eliminada pelos rins.
Saber qual é a quantidade de produção desses diferentes fluidos e materiais biológicos ajuda a entender a excreção. Enquanto um adulto elimina, diariamente, 1,2 a 2 litros de urina, os outros fluidos são produzidos em uma quantidade menor. E alguns desses fluidos permitem que os fármacos sejam reabsorvidos, como a saliva, que, à medida em que vai sendo produzida, vai sendo deglutida (engolida). Mesmo que se perca um pouco de saliva cada vez que se cospe, ninguém fica cuspindo à toa, sem parar.
O mesmo acontece com a bile. Alguns fármacos (e seus metabólitos) podem atingir com facilidade esse líquido. O fígado produz a bile, que é posteriormente armazenada na vesícula biliar e, na sequência, secretada no intestino delgado. A bile desempenha um importante papel na digestão e absorção dos lipídeos e das vitaminas lipossolúveis. No entanto, boa parte da bile é reabsorvida, de modo que tudo que se encontra na bile também é passível de reabsorção. Assim, mesmo que os fármacos atinjam a bile, a maior parte acaba sendo reabsorvida (e a quantidade restante entra na composição das fezes).
Um cuidado especial sobre eliminação de fármacos é em relação à excreção no leite. A quantidade excretada no leite é ínfima e não tem relevância para a mulher (lactante). No entanto, o bebê (lactente) pode pesar vinte quilos a menos que a mãe (considerando uma mãe com 70 kg e um bebê com 3,5 kg). Aí é preocupante, pois se, para a lactante, a quantidade de fármaco excretada no leite é desprezível, para o lactente, essa mesma quantidade de fármaco presente no leite pode ser muito relevante em termos de eventuais efeitos farmacológicos. Alguns medicamentos, se usados durante a amamentação, podem afetar o bebê, causando sedação ou diminuição no reflexo de sucção, entre outros efeitos.
Outro detalhe importante é o impacto sobre o meio ambiente, pois a maior parte dos fármacos será eliminada na urina. Logo, bilhões de pessoas ao redor do mundo produzem, diariamente, urina contendo fármacos, seja na forma inalterada, seja como metabólitos (inclusive com potencial atividade farmacológica residual). Sem falar nos fármacos não absorvidos que irão sair nas fezes (no caso das formas farmacêuticas de uso oral, como comprimidos, e, também, nas de uso retal, como supositórios). Ainda que muitas residências estejam conectadas à rede de esgoto, as estações de tratamento de esgoto removem apenas a matéria orgânica, deixando intactas 99% das moléculas dos fármacos ou de seus metabólitos. Isso justifica o uso racional (e parcimonioso) dos medicamentos.
Enfim, o importante é reconhecer que os fármacos sempre serão eliminados. Embora algumas pessoas afirmem que “o corpo segura o medicamento”, geralmente em alusão aos corticoides, isso não passa de crendice. Os constituintes ativos dos medicamentos (os fármacos) sempre irão embora, ainda que isso possa demorar a acontecer.
Rodrigo Batista de Almeida – Professor do Instituto Federal do Paraná.

Jornal A Folha