Neste artigo, vou explorar a figura do monstro, feito a partir de diversos cadáveres. Para encontrar a sua matéria-prima, Victor vai a sessões públicas de enforcamento, mas acha os corpos muito ruins. Um policial comenta que são criminosos, o que justificaria as imperfeições. Isso pode ser associado à teoria do criminoso nato, de Lombroso, apresentada no livro “L’Uomo delinquente” (1876), apesar de ter sido formulada décadas após a concepção da história de Frankenstein. Por essa teoria, traços anatômicos permitiriam identificar um criminoso. Como os corpos dos sentenciados a enforcamento não serviam ao propósito de Victor, ele obtém o que precisava em um campo de batalha. Alguns corpos eram perfeitos, pois soldados são homens adultos jovens e saudáveis.
Victor investe um bom tempo na confecção do novo ser. Quando termina, posiciona a criatura (ainda sem vida) em uma espécie de cruz, para conectá-la à fonte de energia. Essa cena é muito significativa e pode indicar uma relação intertextual com a história da crucificação de Jesus. No entanto, pela mitologia cristã, Jesus é morto em sacrifício pela humanidade, já o monstro de Frankenstein percorre um caminho contrário (ainda que também em prol da humanidade): sai da morte em direção ao retorno à vida.
Com o sistema linfático percorrido pela eletricidade, a criatura está definitivamente pronta (revivida). No romance original (e também no filme), o ser apresenta características grotescas. É extremamente alto, possui uma pele muito pálida e relativamente translúcida e apresenta cicatrizes bem evidentes, mas, ainda assim, lembra as figuras retratadas nos livros de Anatomia e de Fisiologia, conhecida como o homem-padrão. O homem-padrão é o que se convencionou ser a figura representativa da espécie humana. É um indivíduo adulto, homem, branco, sem deficiência, com 1,80 m e 70 kg. Mesmo a criatura tendo contornos exageradamente grotescos, ainda assim é incontestável sua semelhança com o homem-padrão. E aí é possível vislumbrar mais uma referência intertextual, desta vez com o mito da criação, presente na mitologia cristã. Deus fez o homem à sua semelhança, assim como fez Victor, criando um novo ser também à sua semelhança.
Na sequência do filme, há uma cena muito reveladora do tratamento destinado aos diferentes. Se por um lado, a criatura se assemelhava ao homem-padrão, por outro, tinha feições de monstro. E o que é um monstro se não o diferente, o exótico, o incomum? No século XIX ainda era frequente manter doentes mentais acorrentados, apesar de Philippe Pinel já ter libertado das correntes, de forma pioneira, os seus pacientes no Hospital Salpêtrière, em Paris, em 1795. O monstro, por sua vez, era mantido acorrentado no subsolo do prédio onde funcionava o laboratório de Victor.
Enfim, o monstro de Frankenstein foi concebido no início do século XIX e é muito sugestivo tanto do modelo de ser humano que era considerado perfeito, como das pessoas que tinham características destoantes da suposta normalidade. Muitos anos se passaram da concepção original de Frankenstein e muito se discute sobre o que de fato o romance pode ter inspirado em termos de inovações, sobretudo as aplicadas à terapêutica. Claro que não conseguimos restituir a vida a um corpo morto, mas alcançamos relativo sucesso na manutenção da vida, como transfusão de sangue, transplante de órgãos, enxerto de pele, curativos com pele de rã ou de peixe, tecnologia do DNA recombinante (que permite obter moléculas idênticas às humanas), a ovelha Dolly (obtida por clonagem), CRISPR (ferramenta de edição gênica) e, mais recentemente, a polilaminina, que ainda está sendo estudada no seu potencial para reverter lesões medulares. O monstro de Frankesntein, portanto, segue inspirando a nossa sociedade, até os dias de hoje e, na qualidade de produto de ficção científica, anteviu muito do que surgiria em termos de possibilidades científicas, ainda que muitas não tenham (ainda) aplicação prática aprovada.
Rodrigo Batista
de Almeida – Professor
do Instituto Federal do Paraná.

Jornal A Folha