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Farmacocinéfilos: modos de (tentar) explicar o inexplicável no filme Frankenstein

O filme Frankenstein (2025), de Guilhermo del Toro, é mais uma adaptação do livro “Frankenstein, ou o Prometeu Moderno”,

Farmacocinéfilos: modos de (tentar) explicar o inexplicável no filme Frankenstein
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da escritora Mary Shelley, publicado originalmente em 1818 de forma anônima e, em 1831, em uma versão revisada e finalmente assinada. 
A história mostra a tentativa de um cientista, Victor Frankenstein, de contornar a imortalidade. Ele vinha nutrindo esse sonho desde a adolescência, época em que sua mãe morre no parto de seu irmão. O pai de Victor, também chamado Victor, era cirurgião e foi quem atendeu à esposa, sem conseguir salvá-la. Em uma discussão, Victor confronta o pai pela perda da mãe dizendo “Minha mãe morreu nas mãos do médico mais renomado do seu tempo”. O pai responde “Ninguém vence a morte”, ao que Victor rebate “Eu vencerei”. Em um sonho, um anjo revela a Victor que ele atingirá o domínio sobre as forças da vida e da morte, o que determina a sua obstinação em atingir a imortalidade.
Com o desenrolar da história, Victor aparece em uma cena, já adulto, defendendo a tese sobre o retorno à vida pelo emprego de uma corrente elétrica, no Royal College of Medicine. Ele usa um modelo anatômico, criado por ele mesmo, constituído de uma cabeça de um cadáver, ligada ao tronco e um braço de outro cadáver. O sistema é ligado a uma pilha (a pilha de Daniell) e, ao ser percorrido por corrente elétrica, apresenta um movimento. Um dos professores não aceita a sua explicação, afirmando “Não é mobilidade; é movimento espasmódico causado por corrente elétrica”. Victor explica que o que ele demonstrou segue um conceito diferente, uma noção oriental chamada Qi. O professor, irredutível, diz “Esse truque galvânico não convencerá”, encerrando a sessão.
O termo galvânico vem de Luigi Galvani, cientista que, a partir de experimentos com rãs, concluiu que o movimento dos músculos era decorrente de impulsos elétricos. O seu sobrinho, Giovanni Aldini, ampliou os experimentos, testando corrente elétrica em ovelhas, porcos, vacas e cachorros. Em 1803, Aldini recebeu um corpo de um condenado por assassinato que havia sido executado. Aldini conectou eletrodos no corpo, que, ao ser percorrido por uma corrente elétrica, movimentou a mandíbula, vários grupos de músculos e os olhos. Aparentemente, era como se fosse uma ressureição e, embora, isso tenha sido desmentido pelo próprio Aldini, o seu experimento ganhou muita popularidade como possibilidade de dar vida aos mortos. O galvanismo, portanto, desenvolvido a partir dos estudos de bioeletricidade, era muito mais um estudo que fundamentava a fisiologia do que uma prática que pudesse ser aplicada para fazer um corpo morto retornar à vida.
À parte dessa discussão, quero comentar sobre o conceito de Qi (pronuncia-se “tchi”) citado por Victor. Esse conceito é proveniente da China e é usado para explicar a energia vital ou força vital, que seria a energia que flui por todo o universo e é a responsável por animar os seres. A Medicina Tradicional Chinesa é fundamentada no conceito de Qi, assim como outras práticas tradicionais.
É muito interessante perceber que, quando Victor não consegue explicar o seu experimento pelas bases científicas da sua época, ele recorre a uma teoria importada de outra cultura para tentar justificar os seus achados. Não estou questionando o conceito Qi, até porque não conheço as suas bases, estou apenas apontando uma característica (de Victor, mas encontrada em muitos outros) que é tentar explicar o inexplicável com informações que ninguém entende.
Um exemplo mais próximo da nossa realidade é a Homeopatia, sistema médico desenvolvido por Hahnemann, no século XIX, que utiliza medicamentos obtidos a partir de ativos que se encontram em soluções extremamente diluídas. Ninguém entende a Homeopatia e isso cria um espaço perfeito para explicações pouco compreensíveis, como dizer que a Homeopatia se explica pela Física Quântica, seja lá o que isso possa querer dizer. Foi o mesmo artifício utilizado por Victor. Quando questionado, mete um conceito Qi (que ninguém entendia, talvez nem ele próprio) e tenta explicar o inexplicável.
Rodrigo Batista de Almeida – Professor do Instituto Federal do Paraná. 

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Bruno Lima

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