Essa história estava presente em muitos livros didáticos de Língua Portuguesa, geralmente do quarto ano do ensino fundamental. Marcelo era um menino que passava a história inteira questionando o seu nome. “Por que que eu não me chamo marmelo?”. “Por que que eu não me chamo martelo?”. Sua mãe, pacientemente, explicava que marmelo era o nome de uma fruta e que martelo era o nome de uma ferramenta.
Muitos estudantes de Farmacologia ficam intrigados com as denominações das classes farmacológicas e a alocação dos fármacos em uma determinada classe. Um exemplo é a venlafaxina (do Efexor), classificada como antidepressivo. Só que a venlafaxina também possui indicação para o tratamento de ansiedade. É aí que alguns estudantes perguntam “Posso chamar a venlafaxina de ansiolítico?”, e a resposta é um grande e redondo NÃO. Mas por que, se a vanlafaxina também é usada no manejo de transtornos de ansiedade? Poderia me limitar a responder “Porque não”, mas uma explicação mais completa se mostra mais elegante. A venlafaxina, com reconhecidas ações antidepressivas e ansiolíticas, é pertencente ao grupo dos antidepressivos porque foi registrada, inicialmente, como antidepressivo. Apesar de haver outras indicações terapêuticas secundárias, a sua classificação como antidepressivo prevalece. Então, o mais correto seria falar que a venlafaxina é um antidepressivo que também apresenta utilidade terapêutica em transtornos de ansiedade.
A mesma confusão acontece com os corticoides, chamados de corticosteroides ou anti-inflamatórios esteroidais (para diferenciá-los dos anti-inflamatórios não esteroidais). Nesse grupo, estão a betametasona (do Celestone), a prednisona (do Meticorten) e a prednisolona (do Prelone), por exemplo. No entanto, esses fármacos também podem ser indicados para o controle dos sintomas de um processo alérgico. Posso chamá-los, então, de antialérgicos? Não! Apesar de os corticoides mostrarem eficácia no controle de manifestações alérgicas, não são chamados de “antialérgicos”. Os “verdadeiros” antialérgicos pertencem à classe dos bloqueadores de receptores histaminérgicos do tipo 1, como dexclorfeniramina (do Histamin), loratadina (do Claritin), fexofenadina (do Allegra) e bilastina (do Alektos). Sem falar que os corticoides, por não apresentarem um bom perfil de segurança, devido aos efeitos colaterais, não devem ser usados rotineiramente em alergias.
À essa aparente confusão, chamamos de promiscuidade farmacológica, fenômeno pelo qual um agente, embora indicado para uma condição patológica específica, passa a ser usado também em outras condições. E não é preciso se espantar, pois é muito comum um medicamento apresentar múltiplos efeitos, uma vez que a molécula do fármaco tem afinidade por diferentes tipos de receptores farmacológicos, em diferentes tecidos, em diferentes órgãos.
O caso do Viagra é bem emblemático. A sildenafila, inicialmente desenvolvida como agente terapêutico voltado para hipertensão pulmonar, mostrou eficácia na disfunção erétil. Após alguns estudos complementares, a substância passou a ter essa segunda indicação. Outro exemplo é a iproniazida, o primeiro antidepressivo reconhecido, que, originalmente, era um tuberculostático, mas demonstrou eficácia em controlar os sintomas da depressão.
Portanto, em Farmacologia vale tudo, só não vale preconceito. Se um estudo clínico de alta qualidade metodológica evidenciar segurança e eficácia de uma substância em uma segunda condição específica, essa substância passa a ser usada também para essa condição, embora a classificação inicial prevaleça. Se o que ocorre com os medicamentos também fosse aplicado ao Marcelo, mesmo que ele se entendesse como uma fruta ou como uma ferramenta, continuaria a ser chamado Marcelo.
Rodrigo Batista de Almeida – Professor do Instituto Federal do Paraná.

Jornal A Folha