Em alguns casos, a pessoa perde até a vida, literalmente. Há relatos de pessoas que cometeram suicídio em decorrência da perda no controle com as bets.
O jogo de aposta sempre fascinou a humanidade, há milênios. No Brasil, um dos mais populares é o jogo do bicho. Ele foi criado em 1892, pelo barão João Batista Viana Drummond, fundador do Jardim Zoológico de Vila Isabel, no Rio de Janeiro. Querendo reverter um prejuízo, o barão inventou o jogo, que consistia na escolha de um animal dentre 25 possibilidades. A pessoa comprava o ingresso para o zoológico e junto ganhava uma cartela do jogo do bicho. Em pouco tempo, o jogo ficou tão famoso, extrapolando os limites do Jardim Zoológico. No Brasil inteiro, o jogo do bicho persiste, apesar de ter caído na ilegalidade apenas três anos após a sua criação. No Rio de Janeiro, os que controlam essa prática tornaram-se extremamente ricos, influentes e benquistos pela sociedade. É inegável a relação mantida por décadas entre bicheiros e as escolas de samba, por exemplo.
Outro tipo de jogo que encanta muitas pessoas é a roleta. Os cassinos funcionaram por muitos anos no país, mas foram proibidos em 1946. No Brasil, existiram 71 cassinos, empregando mais de 60 mil pessoas. Os cassinos mais importantes, como o Cassino da Urca, por exemplo, eram locais com muito requinte, que misturavam o jogo com grandes espetáculos de música. Carmen Miranda teve o seu apogeu na época de ouro dos cassinos. Mas apesar da proibição em 1946, na prática, sempre houve locais para se jogar, mesmo que clandestinamente. Em algumas cidades esse tipo de estabelecimento se chamava tunguete, pelo menos em Guarapuava, onde morei entre 2004 e 2006. Ao lado do prédio onde morava funcionava um tunguete.
Os bingos ganharam grande popularidade no início dos anos 2000. Nessa época, eu morava em Porto Alegre, onde havia muitos bingos no centro da cidade, frequentados majoritariamente por idosos. Logicamente, esses estabelecimentos foram proibidos, restando apenas bingos ilegais. As máquinas caça-níqueis também tiveram destaque, sobretudo entre jovens, que frequentavam bares ou casas de fliperama.
Mais recentemente, o jogo on-line surgiu, especificamente em 2018, e em pouco tempo ganhou uma multidão de adeptos. Os problemas vieram na mesma proporção. O que diferencia essa modalidade de jogo de todos os outros tipos que eu citei (cassino, bingo, máquina caça-níquel) é a disponibilidade ininterrupta, já que funcionam 24 horas por dia, 7 dias por semana, e a aposta está à distância de um clique no seu próprio celular. Isso explica a dimensão do problema, pois pessoas com propensão à dependência por jogos de azar não encontram restrições para essa atividade. Até os menores de 18 anos, que, em tese, não poderiam fazer apostas on-line, constituem um importante público das bets, já que a regulação não é suficientemente rígida para coibir o envolvimento de menores.
Todas essas características fazem das bets um problema emergente quando se fala de saúde mental. O perfil do apostador das bets é de um homem, com idade de 16 a 39 anos, sendo que 42% já têm problemas com inadimplência (o conhecido “nome sujo”), metade ganha até 2 salários-mínimos e um terço gasta, mensalmente, mais de mil reais nas apostas. A maior parte dos apostadores não terá consequências. No entanto, 10% irão apresentar algum grau de problema financeiro ou social e 1,4% se enquadrarão no diagnóstico de ludopatia (transtorno mental caracterizado pela compulsão por jogos de azar e pela perda de controle sobre as apostas). O dado mais preocupante é que metade dos que desenvolvem ludopatia terá suas vidas destruídas.
Portanto, as bets estão na mira dos profissionais da saúde, pois temos um contingente muito grande de pessoas viciadas nesses jogos de azar que precisarão do suporte do sistema de saúde. Por enquanto, fica a dica: não seja besta, não caia nas bets.
Rodrigo Batista
de Almeida – Professor
do Instituto Federal do Paraná.

Jornal A Folha