No entanto, alguns podem desenvolver uma relação de dependência à substância, caracterizada pela compulsão no ato de beber, perda de controle sobre o consumo, tolerância (que exige doses cada vez maiores e mais frequentes) e abstinência física e psicológica (verificada quando se tenta interromper o hábito de beber).
Fica claro, portanto, que alguns indivíduos sofrerão as consequências do alcoolismo, doença crônica e multifatorial, que afeta 10% dos brasileiros, sendo a maioria (70%) constituída por homens.
O problema é sério, preocupante e pode comprometer as diferentes esferas da vida da pessoa, bem como das pessoas do seu convívio. Não raro escutamos histórias sobre pessoas que perderam o emprego, perderam dinheiro, perderam a família e perderam a saúde como um todo. É um acúmulo de perdas, muitas irreparáveis. Com relação às pessoas próximas, também é muito comum o relato de não suportarem as consequências do alcoolismo e decidirem se afastar.
São histórias muito tristes, pois envolve uma série de sofrimentos muito intensos e muito prolongados. Por isso, o tratamento deve ser buscado o mais imediatamente possível, tão logo a pessoa perceba que a ingestão de álcool está prestes a fugir do controle.
O tratamento combina medicamentos, terapias psicológicas e programas de suporte e envolve diferentes profissionais. A decisão de se manter longe de bebidas pode ser dificultada pela grande disponibilidade dessa substância em diferentes ambientes sociais. Desse modo, tanto a pessoa, como a sua família, precisa ficar vigilante e tentar, ao máximo possível, afastar o dependente do álcool.
Há uns dias, tive uma discussão com uma pessoa próxima sobre o problema de alcoolismo que um familiar distante apresenta. Essa pessoa insistia em afirmar “Ela é uma bêbada!”, o que me fazia contra-argumentar “Ela é uma dependente química!”. O impasse não teve um desfecho favorável, nem para uma parte, nem para outra. Eu continuo a considerar essa pessoa afetada pelo alcoolismo como uma dependente química e a outra pessoa continua a considerá-la uma “bêbada”.
Mas qual o problema? Não se trata apenas de uma mera divergência sobre a terminologia adotada? A resposta é não. Não é apenas sobre o termo mais correto a se empregar nesse caso. A questão toda é sobre o que esses termos carregam de sentidos, que impactam a forma como essa pessoa é tratada.
Dizer que uma pessoa é uma “bêbada” é reduzir a sua condição em uma perspectiva moralizante, que nada contribui para a resolução do problema ou para a minimização das consequências. Esse termo, além de pejorativo, é relativo ao caráter da pessoa e exclui qualquer possibilidade de o problema ser devido a condições ambientais, genéticas e psicossociais. E isso é um erro.
Ao considerar uma dependência química, o enquadramento que se dá ao caso é muito mais próximo de questões de saúde mental do que uma categorização baseada na moral, cujo emprego parece dar escolha ao indivíduo entre beber e não beber.
Claro que não há uma fórmula mágica para tratar todas as pessoas que são dependentes de álcool. Cada caso deve ser individualizado e um exame minucioso das condições de vida deve ser realizado. É preciso investigar possíveis comorbidades, pois não é incomum a pessoa apresentar outros transtornos mentais. Informações como condição financeira, acesso ao trabalho e rede de apoio familiar também devem ser levantadas. Por fim, é preciso excluir possíveis lesões em órgãos-alvo. O fígado é um dos locais mais afetados pelo consumo excessivo e contínuo de álcool, mas não é o único. Lesões no pâncreas, cérebro e coração também podem surgir.
E o mais importante é considerar a pessoa com alcoolismo com o devido respeito. Ela não é bêbada, é dependente química!
Rodrigo Batista de Almeida
Professor do Instituto Federal do Paraná (IFPR)
Notícias Geral
Ela não é bêbada, é dependente química
O álcool é amplamente aceito na nossa sociedade e muitas pessoas ingerem bebidas alcoólicas sem nenhum prejuízo aparente.
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