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Quinta-feira, 04 de Junho 2026
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Farmacocinéfilos: discutindo o filme Frankenstein na perspectiva da Farmácia

A história de Frankenstein é conhecida mundialmente.

Farmacocinéfilos: discutindo o filme Frankenstein na perspectiva da Farmácia
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Publicada originalmente em 1818 com o título “Frankenstein, ou, o Prometeu Moderno”, somente em 1831 foi editada uma versão assinada pela autora Mary Shelley. A história ganhou inúmeras adaptações, sendo a mais famosa a apresentada no filme de 1931, em que o monstro é interpretado por Boris Karloff. Nessa versão, o monstro tinha dois parafusos (simulando eletrodos), um em cada lado do pescoço, e andava em um padrão característico, como se fosse um zumbi, com o troco ereto e inflexível e braços estendidos rigidamente para a frente, paralelos ao chão. A adaptação mais recente é o filme Frankenstein, de 2025, de Guilhermo del Toro.
No filme, Victor Frankenstein é um cientista que, ao tentar vencer a morte, cria um ser a partir de partes de cadáveres. O novo ser realmente é imortal, mas isso se torna um problema para ambos, criador e criatura. Victor Frankenstein era filho de um famoso cirurgião de mesmo nome. Logo no início do filme, a mãe de Victor, grávida, passa mal e é atendida pelo marido. A criança nasce, mas a mãe morre. Victor (filho) acusa seu pai de ser negligente, por não conseguir impedir a morte de sua esposa: “Minha mãe morreu nas mãos do médico mais renomado do seu tempo”. Seu pai prontamente responde “Ninguém vence a morte”. Mas Victor encerra o diálogo afirmando “Eu vencerei”. Na sequência, Victor tem um sonho, no qual um anjo lhe garante domínio sobre as forças da vida e da morte. 
Victor, já adulto, aparece no Royal College of Medicine, em Edimburgo, defendendo uma tese sobre a reversibilidade da morte por meio da eletricidade, que supostamente estimularia a energia vital. Victor usa um modelo criado por ele, a partir de cadáveres, composto pela cabeça, pedaço do tronco e um dos braços. O modelo estava ligado a uma pilha rudimentar e, ao ser percorrido pela corrente elétrica, apresenta movimentos. Um dos professores diz “Não é mobilidade, é movimento espasmódico causado por corrente elétrica”. E, na sequência, sentencia “Esse truque galvânico não convencerá”.
Mais um salto temporal, surge o tio da noiva do irmão de Victor, Herr Harlander, que o cumprimenta pela sua ideia, que conhecera pelo artigo publicado na The Lancet (uma revista científica da área médica). Harlander oferece financiamento para a pesquisa, o que é aceita, embora Victor queira saber o que o motiva a financiá-lo. Harlander se coloca como uma alma abnegada, interessado apenas no desenvolvimento científico, mas, com o desenrolar da história, ele revela que deseja ser o primeiro beneficiário do projeto de Victor, pois tinha sífilis em estágio avançado: “Quando nós dermos vida ao nosso novo Adão, eu quero ser colocado nesse novo corpo perfeito”. Victor recusa seu pedido.
Ao revelar sua condição, Harlander cita um ditado comum à época: “Uma noite com Vênus, uma vida toda com Mercúrio”. Vênus, na mitologia grega, era a deusa do amor e, pelo fato de a sífilis ser transmitida por via sexual, havia essa relação com Vênus. Inclusive, um termo já meio em desuso para doenças transmitidas por relação sexual é “doenças venéreas”, em alusão a Vênus. Voltando ao ditado, uma noite de luxúria bastava para contrair a sífilis, o que determinaria o uso contínuo do mercúrio.
Os compostos de mercúrio foram utilizados por aproximadamente 400 anos (do final do século XV até o início do século XX) no tratamento da sífilis. Extremamente tóxicos e com pouca eficácia, foram substituídos pela penicilina. Atualmente, o protocolo padrão prevê a administração de duas injeções, pela via intramuscular, de Benzetacil (penicilina G benzatina), em dose única, nos casos de sífilis recente (infecção com menos de um ano de evolução) ou duas injeções por semana (durante três semanas), nos casos de sífilis tardia (com mais de um ano de evolução ou tempo indeterminado).
Apesar de os compostos de mercúrio não passarem, hoje, de simples curiosidades da História da Farmácia e da Medicina, é interessante reconhecer a sua história na terapêutica da sífilis. O filme Frankenstein, portanto, pode ser discutido à luz da Farmácia, assim como tantos outros filmes.

Rodrigo Batista de Almeida – Professor do Instituto Federal do Paraná.  

Bruno Lima

Publicado por:

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