Na semana passada, eu escrevi um artigo mais voltado aos medicamentos, mas a Farmácia é muito mais ampla, bem como o filme apresenta muitas outras referências. Desse modo, vou trazer alguns artigos em que irei discutir outros aspectos para além dos medicamentos.
A história é centrada em Victor Frankenstein, um cientista que busca obter a imortalidade. Inicialmente desacreditado pela comunidade científica, Victor consegue criar um ser imortal, mas isso traz sérias consequências, tanto a ele, como à sua criatura.
Sem dinheiro, Victor aceita a oferta de financiamento, para sua pesquisa, do tio da noiva do seu irmão, Herr Harlander, que se coloca como um abnegado mecenas da ciência, embora, no decorrer da história, exponha sua real intenção, que era usufruir da imortalidade, já que tinha sífilis, o que na época era uma sentença de morte.
No desenrolar da história, há menções a figuras mitológicas, como Prometeu, Medusa, Vênus e Mercúrio. O próprio título do livro cita Prometeu. Pela mitologia grega, Prometeu era um titã, que desobedece a Zeus ao entregar o fogo sagrado à humanidade. Zeus tinha confiado a Prometeu e a Epimeteu (seu irmão), a tarefa de criar os seres vivos. Epimeteu foi criando os animais, atribuindo uma característica peculiar que seria utilizada como vantagem por cada espécie. Alguns animais receberam garras, outros asas e alguns foram dotados de velocidade. Como o homem foi criado por último, acabou não recebendo nenhum atributo especial que lhe conferisse uma proteção natural, tornando-se um ser extremamente vulnerável. Diante disso, Prometeu roubou o fogo do Olimpo e o entregou aos homens. Desse modo, a humanidade consegue cozinhar alimentos, aquecer-se em dias frios e forjar metais para obter ferramentas, o que possibilitou dominar a natureza. Zeus ficou furioso e determinou um castigo eterno para Prometeu, que ficaria acorrentado no Monte Cáucaso, tendo seu fígado devorado por uma águia. Como Prometeu era imortal, apesar de a ave o atacar de dia, seu fígado se regenerava à noite, e, no outro dia, um novo ataque acontecia, e isso ocorreria de forma indefinida. Após alguns anos, Hércules mata a águia, libertando Prometeu da sua pena. O fogo, nesse mito, simboliza o conhecimento e a independência. Mary Shelley coloca Frankenstein como o novo Prometeu por ousar questionar uma ordem divina, buscando meios para superar a mortalidade dos seres.
Outro mito presente no filme é o da Medusa. No laboratório de Victor, há um detalhe circular em uma das paredes, com a cabeça da Medusa, em oposição a um vitral, redondo, de mesmas dimensões. Esses elementos arquitetônicos mostram Victor literalmente entre a luz (que representa a sabedoria, a racionalidade) e a superstição (da Medusa, usada para espantar os maus espíritos). Poseidon, o deus dos mares, desejou Medusa e, ao ser recusado, violentou-a no templo de Atena, que, furiosa pela profanação do seu templo, resolve punir a Medusa, transformando seus cabelos em serpentes e amaldiçoando o seu olhar, que passa a transformar em pedra todas as pessoas que ousassem fitá-los. Perseu recebeu a missão de matá-la, obtendo êxito ao decapitá-la. A cabeça de Medusa foi entregue a Atena, que a colocou em seu escudo. Isso popularizou a imagem da cabeça da Medusa em objetos circulares, que eram usados para afugentar os maus espíritos.
A última menção à mitologia ocorreu quando Harlander, ao revelar a Victor ter sífilis, cita uma frase célebre à época: “Uma noite com Vênus, uma vida toda com Mercúrio”. Como a sífilis é contraída por relações sexuais, usava-se essa relação com Vênus, a deusa romana do amor (sua equivalente na mitologia grega é Afrodite). E como o tratamento empregado à época era baseado em mercúrio, isso justifica a segunda parte do ditado. Enfim, reconhecer essas referências tanto auxilia na compreensão da narrativa, como torna mais interessante a história do Frankenstein e sua criatura.
Rodrigo Batista de Almeida – Professor do Instituto Federal do Paraná.
Jornal A Folha