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Sexta-feira, 29 de Maio 2026
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Farmacopeia materna

Assim como todas as mães, a minha tinha uma lista de medicamentos e outros produtos relacionados para administrar aos seus filhos, ao menor sintoma de alguma condição patológica.

Farmacopeia materna
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E criança geralmente tem problemas recorrentes, o que exige doses frequentes de diferentes medicamentos. A minha mãe tinha até uns livros sobre medicamentos, Medicina e doenças, o que servia para dar a sensação de profundo conhecimento sobre o assunto. E a sua supervisão nos assuntos de casa era constante porque ela teve a sorte de trabalhar em casa, já que era professora de piano. Isso lhe permitia acompanhar de perto tudo que se relacionava aos seus filhos.
Um dos medicamentos mais usados era a Nevralgina (dipirona), similar à Novalgina. Mas tinha que ser a Nevralgina mesmo! Não adiantava chegar em casa com Novalgina. Ela mandava trocar. A crença era tão grande nesse medicamento, que nós usávamos de forma repetida, algumas vezes sem uma indicação expressa.
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O outro medicamento que competia com a Nevralgina, na frequência de uso, era a água vegeto-mineral (Água de Goulard), manipulada na Farmácia Sissi, uma das mais antigas de Ponta Grossa. A água vegeto-mineral é uma solução de uso tópico com efeito adstringente e anti-inflamatório, mas, para a minha mãe, o produto era uma panaceia. Em qualquer batida ou dor, a minha mãe prontamente vinha com o frasco de água vegeto-mineral aditivado, pois ela acrescia sal de cozinha por acreditar que potencializava a ação. Muitas das “águas”, assim como a água vegeto-mineral, sumiram das farmácias, restando poucos produtos reminiscentes, como a água de melissa e a Água Inglesa, por exemplo. 
Em refeições pesadas, uma dose de Sal de Frutas Eno, do pote de vidro, era obrigatória. E para diferentes condições de saúde, sempre havia o específico recomendado. Eram glóbulos homeopáticos do Dr. Humphreys. Uma tossida, um barulho de peito carregado, uma indisposição, tudo podia ser combatido com o específico adequado. “Vai tomar o específico!” era uma das falas mais escutadas na minha infância.
E se fosse uma gripe forte, o tratamento consistia em torradas e chá de hortelã. Até hoje eu não suporto chá de hortelã! Se a gripe fosse ainda mais forte, o recurso era uma injeção de Ozonyl, que não servia para nada, além de ficarmos “perfumando” o ambiente, devido à liberação, pelo ar exalado, de óleos essenciais aromáticos que entravam na composição do medicamento.
Na linha da nutrição, havia inúmeros produtos que deveriam ser consumidos com certa regularidade. Muitos eu detestava, como Calcigenol, Emulsão de Scott (óleo de fígado de bacalhau), Neston, ovo quente e bife de fígado. Outros eu tolerava, como Sadol, sendo que alguns eu gostava bastante, como Yakult, banana amassada e gemada.
Como reflexo do que se discutia junto à população leiga nos anos 1980, sobretudo em revistas, algumas até “especializadas” como a Revista Saúde, minha mãe sempre nos dava vitaminas, suplementos e produtos relacionados, como Cebion, spirulina, guaraná em pó, levedura de cerveja etc. Muitos desses produtos eram adquiridos em uma loja de produtos naturais, que se popularizou como herança do movimento hippie. 
Mas, do elenco de medicamentos e outros tratamentos populares nos anos 1980, nem tudo era utilizado. A minha mãe tinha aversão a antibióticos, e essa percepção certamente veio de alguma notícia sensacionalista que ela leu. Alguns tratamentos caseiros, considerados “quentes”, deviam também ser evitados, como suador e chá de laranja. 
Enfim, tudo que a minha mãe usava na nossa infância era bem representativo do que era o cuidado que as mães tinham nos anos 1980. Embora havendo algumas irracionalidades, a farmacopeia materna também tem seus acertos e eu estar vivo e servir de testemunho é uma evidência disso tudo, embora a força dessa evidência mereça ser avaliada com mais rigor. O que é certo é que, a cada época, a farmacopeia materna vai se atualizando, incorporando novos medicamentos ao mesmo tempo em que abandona outros.  
Rodrigo Batista de Almeida – Professor do Instituto Federal do Paraná.  

Bruno Lima

Publicado por:

Bruno Lima

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