Ambas pertencem à mesma classe, os análogos do GLP-1, um hormônio que é liberado quando a gente se alimenta e que, entre várias funções, promove sensação de saciedade e de estômago cheio, o que leva a menor ingestão de alimentos. Na verdade, essas substâncias não foram desenvolvidas para o tratamento da obesidade, mas, sim, para o diabetes tipo 2, em que ainda há uma produção residual de insulina e os medicamentos utilizados agem no aumento da secreção desse hormônio ou na maior sensibilização das células à insulina, entre outras ações não diretamente envolvidas com a insulina, como a diminuição da absorção de carboidratos ou da produção hepática de glicose, por exemplo. O efeito na obesidade por muitos anos não constava em bula, o que configurava o uso off-label.
O GLP-1 produzido pelo nosso organismo tem ação muito curta, devido à sua metabolização ocorrer em minutos. A vantagem dos seus análogos é garantir um tempo de ação muito maior. Esse tempo é tão grande que a liraglutida é administrada uma vez ao dia e a semaglutida, uma única vez na semana.
Essa comodidade posológica certamente contribuiu para o sucesso nas vendas do Ozempic. Havia anos que um medicamento não fazia tanto sucesso. Para ficar restrito a poucos exemplos, tivemos o Tagamet (cimetidina, um antissecretor, usado na gastrite) no início dos anos 1970, o Prozac (fluoxetina, um antidepressivo) lançado no final dos anos 1980 e o Viagra (sildenafila, para disfunção erétil) que surgiu no final dos anos 1990. Mas no século XXI, certamente o Ozempic (re)inaugurou a era de ouro da indústria farmacêutica. As vendas explodiram, a ponto de esse produto ser considerado o fator que sozinho elevou o PIB (produto interno bruto) da Dinamarca, o país sede da indústria produtora (Novo Nordisk).
Com o sucesso do Ozempic, outras “Big Pharmas” (as gigantes do setor industrial farmacêutico) investiram no desenvolvimento de substâncias que superassem a semaglutida em efetividade. Eis que a Eli Lilly, dos Estados Unidos, lançou o Mounjaro (tirzepatida) em 2025. Essa molécula mostra-se mais vantajosa que a semaglutida por apresentar mecanismo de ação duplo, sendo análoga tanto do GLP-1 quanto do GIP (outra substância natural produzida pelo nosso corpo, do grupo das incretinas, ao qual pertence também o GLP-1). Ambas as substâncias (GIP e GLP-1) apresentam o efeito de reduzir a ingestão de alimentos e promover uma perda de peso, só que, no caso do Mounjaro, a perda de peso é ainda superior. E o mundo inteiro passa a desejar o Mounjaro.
Mas a história não para por aí. A própria Eli Lilly continuou pesquisando e chegou à retatrutida, uma molécula que também promove perda de peso, mas de forma ainda mais pronunciada. A explicação para esse efeito notável é o mecanismo triplo, sendo análoga do GLP-1 e do GIP e agonista dos receptores do glucagon. Uma das vantagens atribuídas a essa nova molécula é a maior perda de gordura corporal, preservando o tecido muscular.
O problema é que não há um medicamento contendo retatrutida aprovado pelas autoridades sanitárias disponível no comércio farmacêutico. Mas para a criatividade humana não há limites. Algumas pessoas estão trazendo do Paraguai produtos que alegadamente contêm retatrutida, mas sem nenhuma garantia que se trata dessa molécula bioativa. E o problema é ainda maior. Porque, se por um lado, não há como garantir que se trata de retatrudida, por outro, não há como saber o que há dentro dessas “canetas”. Infelizmente, esses produtos já estão circulando em Palmas, expondo muitas pessoas a um risco inestimável. Não posso afirmar nada em relação ao risco porque não tenho ideia do que possa ter dentro dessas “canetas”. Então, é uma roleta-russa. Bem diferente de comprar maconha ou cocaína do traficante de rua, em que a gente sabe exatamente o que tem dentro de cada droga (no caso da maconha, há folhas de maconha secas e prensadas, junto com bosta de vaca e capim; no caso da cocaína, tem um pouquinho de cocaína, junto com amido de milho e xilocaína), nessas “canetas”, sabe Deus o que pode ter dentro.
Rodrigo Batista de Almeida – Professor do Instituto Federal do Paraná.

Jornal A Folha