a Officina Profumo-Farmaceutica di Santa Maria Novella. Fundada em 1221 por frades dominicanos, a farmácia só foi aberta ao público em 1612 e ainda segue comercializando vários produtos farmacêuticos. Algumas fórmulas são originais da época da fundação da farmácia e somente algumas pessoas, diretamente ligadas à empresa, conhecem os seus detalhes.
A contribuição da Officina Profumo-Farmaceutica Santa Maria Novella para o mundo farmacêutico é inegável, como no caso da água de colônia. Os frades dominicanos criaram um perfume exclusivo para a noite de núpcias de Catarina de Médici, casada com o rei Henrique II. Mais tarde, esse perfume foi levado a Colônia, na Alemanha, onde ganhou o nome Água de Colônia. A fórmula misturava bergamota da Calábria, limão da Sicília, gardênia, alecrim e cravo-da-índia. E aí surgia a “água de colônia”, o que hoje pode ser entendido como um perfume muito suave, exigência de Catarina, que não queria uma fragrância muito intensa no seu leito nupcial.
O cuidado com a preparação dos produtos de Santa Maria Novella pode ser percebido pela qualidade da matéria-prima. As ervas medicinais e aromáticas utilizadas eram cultivadas pelos próprios frades nos arredores do mosteiro.
Quem for a Florença pode conhecer o museu anexo ao laboratório, que reúne diversas peças que contam a história desse empreendimento. Quem não for, pode pesquisar na Internet, onde há farto material. Pelas fotos, dá para ter uma noção da grandiosidade da marca. Até há alguns anos, era possível comprar os produtos da Santa Maria Novella em uma filial no Brasil, que funcionou em São Paulo, na Rua da Consolação, nos Jardins. Talvez pelos altos preços, a loja fechou. Os produtos são muito, mas muito, caros! Um simples sabonete pode custar centenas de reais. Na verdade, você paga pelo produto, pela embalagem, pela marca, pela pompa e pelos quase oitocentos anos de tradição (se considerar a data de criação – 1221, e não a data de abertura ao público – 1612).
O Brasil teve algo parecido, com a Botica do Colégio dos Jesuítas, na Bahia. A farmácia era tão organizada que fornecia medicamentos aos que necessitavam de caridade e às santas casas, além de exportar alguns produtos para a Europa. O mais conhecido foi a Teriaga Brasilica, uma mistura de mais de setenta ingredientes, provenientes de vegetais, animais e minerais, ao qual era atribuída a propriedade de antídoto universal. É claro que um antídoto universal não existe, mas a fama ganhou o mundo e o Marquês de Pombal, que encabeçou a expulsão dos jesuítas do Brasil, tinha ordens expressas da Coroa Portuguesa para encontrar a fórmula da Teriaga Brasilica. Todo o esforço foi em vão, sendo que a fórmula só iria ser encontrada anos mais tarde, para grande prejuízo de Portugal, já que o produto era a principal fonte de receita dos jesuítas.
A botica foi desativada após a expulsão dos jesuítas e o colégio abrigou o Curso de Medicina da Bahia, mais tarde incorporado à Universidade Federal da Bahia. No local da nossa Santa Maria Novella tupiniquim, hoje funciona o Museu da Faculdade de Medicina da Bahia, que também merece uma visita por quem passar por Salvador.
Indiscutivelmente, Santa Maria Novella é um ícone da farmácia e inspirou muitas outras farmácias ao redor do mundo, inclusive as do Brasil, como já mencionado. Atualmente, as farmácias perderam a pompa do passado, passando a estabelecimentos muito claros, muito brancos, sem nenhum ornamento. Mas Santa Maria Novella resiste. Há quatro séculos!
Rodrigo Batista de Almeida
Professor do Instituto
Federal do Paraná.
Comentários: