E, a cada eleição, elas chegam mais bonitas, mais emocionantes, mais cinematográficas e, agora, tecnologicamente quase perfeitas. O candidato aparece caminhando entre pessoas, abraçando trabalhadores, ouvindo idosos, sorrindo para crianças. A cidade surge impecável. A música cresce no momento certo. A voz do narrador transmite segurança. A edição transforma segundos em esperança.
E hoje existe um ingrediente novo: a tecnologia consegue fabricar uma realidade tão convincente que, muitas vezes, já não sabemos onde termina o registro verdadeiro e onde começa a construção digital.
Mas talvez exista uma ironia nisso tudo.
Porque, muito antes da inteligência artificial, nós já tínhamos dificuldade para descobrir o que havia de verdadeiro numa campanha eleitoral.
Mudaram os efeitos.
Mudaram as câmeras.
Mudaram os programas de edição.
Mudaram os algoritmos.
Mas uma pergunta continua exatamente a mesma: quanto daquilo que estamos ouvindo sobreviverá ao dia seguinte da eleição?
Campanha eleitoral é comunicação persuasiva por natureza. E persuasão não é necessariamente mentira. O problema começa quando a promessa deixa de apresentar um projeto possível e passa a vender um futuro cuidadosamente desenhado apenas para conquistar emoção, esperança e voto.
É aí que precisamos prestar atenção.
Porque existe uma enorme diferença entre apresentar uma proposta e vender uma fantasia.
Na campanha, tudo parece caber em quatro anos.
A saúde vai melhorar.
A educação será prioridade.
A segurança será transformada.
As estradas serão recuperadas.
Os empregos chegarão.
Os impostos serão revistos.
As filas diminuirão.
Os problemas históricos finalmente serão resolvidos.
É impressionante como, durante alguns meses, parece existir dinheiro, tempo e solução para absolutamente tudo.
Depois vem a realidade.
E talvez o eleitor precise começar a fazer algo que dá mais trabalho do que assistir a um programa eleitoral: perguntar.
De onde virá o dinheiro?
Essa proposta depende exclusivamente desse candidato ou precisa passar pelo Legislativo?
Existe prazo?
Existe orçamento?
O que essa pessoa prometeu anteriormente?
O que efetivamente entregou quando teve oportunidade de governar ou legislar?
Os números apresentados possuem fonte?
A imagem que estou vendo é verdadeira?
O vídeo foi editado fora de contexto?
Estou escolhendo uma proposta ou apenas reagindo a uma emoção cuidadosamente produzida?
Porque a democracia se fragiliza quando o eleitor deixa de investigar e passa apenas a sentir.
E talvez esse seja um dos maiores desafios das próximas eleições: não permitir que a sofisticação da propaganda seja confundida com a competência de quem pretende governar.
Um vídeo extraordinário não administra uma cidade.
Uma trilha emocionante não constrói um hospital.
Uma frase perfeita não melhora uma escola.
Um efeito de inteligência artificial não gera emprego.
E uma promessa repetida mil vezes continua sendo apenas uma promessa até que existam meios concretos para realizá-la.
A tecnologia pode mudar profundamente a maneira como uma campanha é apresentada. Mas existe uma tecnologia muito mais antiga que continua sendo indispensável: o pensamento crítico.
Antes de compartilhar, verifique.
Antes de acreditar, questione.
Antes de se emocionar, investigue.
Antes de escolher, compare propostas e evidências.
Porque talvez a eleição mais perigosa não seja aquela em que a tecnologia consegue criar uma realidade que nunca existiu.
É aquela em que nós deixamos de perguntar se a realidade que estão nos prometendo poderá, de fato, existir.
Júnior Chisté, psicólogo, “escritor e palestrante. “Atende através de “vídeo-chamadas, “(49) 9 9987 9071.

Jornal A Folha