Não quero ser juiz ou ocupar este espaço para julgar os relacionamentos dos outros. Todavia, confesso que os rancores, as raivas, vinganças estão em alta. Estes adjetivos até ganham seguidores e compartilhamento. Se alguém está ofendendo raivosamente o meu rival, pode ser que estou apoiando e me sentindo representado. Tenho observado como as propagandas políticas veiculadas gratuitamente nos meios de comunicação do Brasil têm sido palcos para o desfile de narrativas de desclassificação do oponente e discursos poluídos de verbos, frases e sentenças condenatória. Sintetizando. Em tempos de discursos agressivos, que se multiplicam nas redes sociais, sobretudo, somos tentados a percorrer estes mesmos caminhos, a fim de alcançar poder, fama e bem-estar econômico, político e religioso aplaudindo as imbecilidades que ganham forças e seguidores. Rancor e ódio são obstáculos às relações, ao perdão e à misericórdia.
Jesus Cristo oferece-nos um caminho para curar nossas relações ofendidas e ultrajadas. O Apóstolo Pedro interroga o mestre Jesus: “Senhor, ‘quantas vezes’ perdoar se meu irmão pecar contra mim. Até sete vezes?”. Sete, na Bíblia, é um número que indica completude e, por isso, Pedro é muito generoso nas suposições de sua pergunta. A pergunta recebe uma resposta articulada pelo Mestre na excelência e na prática do perdão: “Não te digo perdoar até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (cf. Mt 18,21-35). Perdoar sempre, por toda a vida, caro Pedro e meus seguidores, pede-nos o Senhor. Jesus prospecta a exigência de um perdão total e definitivo. Jesus amplia, de certa forma, o imperativo do perdão até o infinito. Perdoar é um dos maiores desafios da vida cristã e da vida em todas as dimensões. Pela proposta de Jesus, somos chamados a deixar de lado a lógica da cobrança e do ressentimento e a construir relações marcadas pelo perdão, pela reconciliação e pela compaixão. É isso que pedimos na Oração do Senhor, o Pai-nosso: “Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos têm ofendido”.
Papa Francisco
Segundo Francisco, “cada um de nós, de fato, é um ‘perdoado’ ou ‘perdoada’: não nos esqueçamos disso, somos perdoados, Deus deu a vida por nós e de modo algum podemos compensar a sua misericórdia, que Ele nunca retira do coração. Entretanto, correspondendo à sua gratuidade, ou seja, perdoando-nos uns aos outros, podemos dar testemunho dele, semeando vida nova ao nosso redor. Fora do perdão não há esperança, fora do perdão não há paz. O perdão é o oxigênio que purifica o ar poluído pelo ódio. O perdão é o antídoto que cura os venenos do rancor, é o caminho para desativar a raiva e curar tantas doenças do coração que contaminam a sociedade”.
Papa Leão 14
O Papa Leão 14, na Encíclica Magnifica Humanitas, escreveu: “Cuidemos das relações! Numa época que tende a acelerar e a fragmentar, a carne humana continua a pedir para ser cuidada e reconhecida por mãos capazes de ternura, por mentes atentas e por palavras bondosas. A cultura digital multiplica as conexões e oferece novas possibilidades de encontro; no entanto, o coração humano conserva uma necessidade inalienável de proximidade. Convido a preservar os lugares e os momentos em que a presença física continua a ser decisiva: a mesa partilhada, a comunidade cristã que se reúne, a visita a quem está só, o serviço aos pobres. São sinais de uma humanidade que continua a acreditar que cada corpo é templo do Espírito e casa de Deus, e é precisamente esta aliança entre glória e fragilidade que se torna o critério para avaliar os modelos antropológicos propostos pela cultura atual” (MH n. 239). Cuidemo-nos!
Dom Edgar Xavier Ertl
Diocese de Palmas-Francisco Beltrão

Jornal A Folha