E uma delas dói de forma profunda: o Brasil registra, em média, 15 estupros coletivos por dia. Segundo dados do Ministério da Saúde, entre 2022 e 2025 foram 22.800 casos registrados de estupro coletivo no país. Vinte e dois mil e oitocentas histórias de violência, trauma e silêncio. Vinte e dois mil e oitocentos momentos em que a dignidade de alguém foi brutalmente violada. Mas o que mais assusta não é apenas o número. É quem são as vítimas. A maioria delas são meninas e adolescentes. Crianças que ainda deveriam estar descobrindo o mundo com inocência, protegidas pela sociedade, pela família, pelas instituições. Em vez disso, muitas delas encontram medo, violência e marcas que podem atravessar uma vida inteira. E há um detalhe que revela algo ainda mais perturbador: na maioria dos casos, pelo menos um dos agressores conhece a vítima. Não é um estranho nas sombras. Muitas vezes é alguém do convívio, alguém próximo, alguém que estava dentro do círculo de confiança. Essa proximidade cria uma barreira silenciosa. A denúncia se torna mais difícil. O medo cresce. A vergonha aparece onde deveria existir apenas acolhimento. E a vítima, muitas vezes, é quem acaba sendo julgada. Outro fator alarmante é a dinâmica que ocorre quando o crime é cometido em grupo. A responsabilidade individual se dilui. Um encoraja o outro. A violência se torna uma espécie de pacto coletivo de crueldade, onde a consciência parece desaparecer diante da pressão do grupo. É assim que o absurdo acontece. E é assim que o silêncio se perpetua. Dos casos registrados, 14,4 mil foram cometidos contra crianças e adolescentes e 8,4 mil contra mulheres adultas. E ainda precisamos lembrar: especialistas afirmam que os números reais podem ser muito maiores, porque muitas vítimas jamais conseguem denunciar. Por medo. Por vergonha. Por falta de apoio. Ou por uma sociedade que ainda insiste em perguntar “o que ela estava fazendo?” em vez de perguntar “por que eles fizeram isso?”. Esse é um problema que não pode ser tratado apenas como estatística. É um problema de cultura, de educação, de responsabilidade coletiva. Porque uma sociedade saudável não mede apenas seu progresso em números econômicos. Ela se mede pela forma como protege seus mais vulneráveis. Enquanto uma menina ainda tiver medo de denunciar,“enquanto uma mulher ainda for julgada por sofrer violência,“enquanto um agressor ainda se sentir protegido pelo silêncio do grupo… nós ainda teremos muito a evoluir. E talvez a pergunta mais dura que precisamos fazer seja esta: que tipo de sociedade estamos construindo quando 15 vidas são violentadas todos os dias, e ainda assim seguimos tratando isso como apenas mais uma notícia?
Júnior Chisté, psicólogo,
escritor e palestrante.
Atende através de vídeo-chamadas,
(49) 9 9987 9071.
