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Farmacocinéfilos: os quatro humores como paradigma fisiológico em Frankenstein

O filme Frankenstein (2025) conta a história de um cientista, Victor Frankenstein, e seu desejo por atingir a imortalidade. Dos seus experimentos, ele cria um ser, que realmente é imortal, mas isso traz inúmeros problemas.

Farmacocinéfilos: os quatro humores como paradigma fisiológico em Frankenstein
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Em uma das cenas iniciais, Victor, por volta dos 15 anos, submete-se a uma avaliação oral aplicada por seu pai, também chamado Victor, um dos maiores médicos de sua época. Victor (pai) pede a Victor (filho) que liste a antiga classificação dos humores no corpo. Victor (filho) prontamente responde “sangue, bile negra, bile amarela e fleuma”. A Teoria dos Humores surge de uma teoria ainda mais antiga, a Teoria dos Quatro Elementos. A teoria dos Quatro Elementos foi desenvolvida na Grécia Antiga, por Empédocles (século V a. C.), e propunha que toda a matéria era composta pela combinação de quatro elementos, o fogo, o ar, a água e a terra, muito diferente dos 118 elementos listados na tabela periódica atual. Esses quatro “elementos”, inclusive, nem são considerados elementos, de acordo com os postulados da Química. O fogo não é sequer matéria, é apenas a energia em forma de luz e calor liberada em uma combustão, reação que ocorre entre um combustível e um comburente (o oxigênio). O ar, por sua vez, é uma mistura de gases, composto principalmente por nitrogênio (78%) e oxigênio (21%). O restante é formado por gás carbônico, vapor d’água e outros gases em quantidades-traço (substâncias que estão presentes em quantidades extremamente pequenas).A terra (o solo) também é constituída por um conjunto de substâncias, como minerais (45%), fragmentos de rochas, água (25%), matéria orgânica (5%) etc. Até a água é uma mistura de diferentes entidades químicas. Água enquanto substância pura (contendo apenas moléculas de H2O) só é obtida em condições experimentais rigorosamente controladas e dura pouco tempo, já que, em contato com o ar atmosférico, vai incorporando substâncias na forma de gases. A água encontrada em fontes naturais apresenta gases e minerais dissolvidos, provenientes do contato com o solo e rochas.  A teoria dos quatro elementos foi expandida por Platão e Aristóteles. Platão associou os quatro elementos à estrutura do corpo. Os ossos seriam formados pela terra, o sangue pela água, a respiração pelo ar e a energia vital pelo fogo. Aristóteles associou os elementos a suas características (quente, frio, úmido e seco). O fogo seria quente e seco, o ar, quente e úmido, enquanto a água era fria e úmida e a terra, fria e seca.   O grego Hipócrates (460 a. C. e 370 a. C.), considerado o pai da Medicina, usou a Teoria dos Quatro Elementos para criar a sua própria teoria (a Teoria dos Humores) que explicaria o equilíbrio no corpo são. O organismo seria composto por quadro líquidos (os humores), a saber: sangue, bile amarela, bile negra e fleuma. Cada humor era formado por um dos quatro elementos: sangue (ar), bile amarela (fogo), bile negra (terra) e fleuma (água). O equilíbrio entre os quatro humores determinaria a saúde, enquanto o desequilíbrio, seja por falta de um (ou mais de um) humor, seja pelo excesso, promoveria a doença. Por essa mesma lógica, os tratamentos (medicamentosos ou não) promoveriam um reequilíbrio dos humores, permitindo o retorno a um estado de perfeita saúde.   Dando um passo ainda mais adiante, o grego Galeno (129 d. C. a 216 d. C.) associou cada um dos humores a um temperamento. A pessoa que apresentasse uma maior quantidade de sangue era considerada sanguínea. Aqueles que tinham excesso de água eram os fleumáticos, ao passo que quantidades elevadas de bile amarela e bile negra determinavam o perfil colérico e melancólico, respectivamente. Esses quatro temperamentos explicavam a predisposição que alguns têm por doenças específicas. Os melancólicos, por exemplo, teriam tendência à depressão. Portanto, dos quatro elementos surgiram os quatro humores e, dos quatro humores, os quatro temperamentos. Logicamente, são ideias muito antigas e já ultrapassadas, até para a época em que a história de Frankenstein foi ambientada (século XIX).   

Rodrigo Batista de Almeida – Professor do Instituto Federal do Paraná.  

Bruno Lima

Publicado por:

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