Do ponto de vista neurobiológico, há uma série de alterações relacionadas ao estresse, como a ativação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (que promove a liberação de cortisol) e o estímulo do sistema nervoso autônomo simpático (com a liberação de adrenalina).
A adrenalina promove a resposta de “luta ou fuga”, descrita por Cannon em 1915 (estudos posteriores evidenciaram a resposta de congelamento, frente a ameaças, configurando o modelo de “luta, fuga ou congelamento”). Lutar ou fugir é uma decisão voltada para a sobrevivência quando detectada uma ameaça. A amígdala é a estrutura do cérebro responsável por identificar o estímulo de ameaça, sinalizar ao hipotálamo, o qual ativa o sistema nervoso autônomo simpático.
Com a adrenalina a mil, várias adaptações fisiológicas acontecem, como o aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial, dilatação da pupila, broncodilatação, redistribuição do fluxo sanguíneo para os músculos esqueléticos e liberação de glicose. Tudo isso, em conjunto, melhora o desempenho tanto para a luta, como para a fuga.
Durante a resposta de luta ou fuga, o campo de visão pode colapsar e a capacidade sensorial é alterada, impedindo o cérebro de analisar e compreender informações. Os recursos cognitivos são direcionados aos estímulos ameaçadores, reduzindo o processamento de informações periféricas. Esse fenômeno é conhecido como visão de túnel e, além da diminuição da percepção visual, pode haver exclusão auditiva, focando em uma única fonte sonora. Em casos extremos, o córtex pré-frontal sobrepõe o que você escuta pela sua visão, ignorando completamente os estímulos sonoros.
A neurobiologia do estresse e do medo envolve o córtex pré-frontal e a amígdala. O córtex pré-frontal é a base dos processos cognitivos complexos, como planejamento, controle da emoção e julgamento de ações. No entanto, o córtex pré-frontal não é apenas destinado a processos cognitivos. Ele também é responsável por processos emocionais. Há um intenso fluxo de informações, tanto das regiões corticais superiores para as áreas subcorticais, como a amígdala e o hipotálamo. Mas, sob ameaça, o controle racional e moral exercido pelo córtex pré-frontal é temporariamente suprimido, permitindo que respostas automáticas, instintivas e emocionais dominem o comportamento. Sob medo intenso, há supressão da atividade racional do córtex pré-frontal, com predominância da atividade da amígdala e do tronco encefálico, que promovem respostas automáticas e instintivas voltadas unicamente à sobrevivência.
O medo é uma forte emoção causada por uma antecipação ou consciência de um perigo em potencial. O sistema do medo mais conhecido é o “condicionamento pavloviano do medo”, que envolve o estímulo condicionado e o incondicionado. O estímulo incondicionado corresponde a um evento relevante, capaz de gerar uma resposta emocional automática (como dor ou prazer). O estímulo condicionado, por sua vez, é originalmente neutro, mas adquire um valor emocional após uma série de associações com um estímulo incondicionado, mediadas por diferentes sistemas neurais, envolvendo a amígdala, o hipocampo e o córtex pré-frontal. Um exemplo de estímulo condicionado é o cheiro do perfume de um agressor. O perfume em si é um estímulo neutro, mas, quando associado a um agressor, passa a ter um caráter negativo, gerando ansiedade, medo e repulsa.
Enfim, é importante frisar a relevância da temática, sobretudo em populações em vulnerabilidade, que são vítimas de violência doméstica, possuem moradias precárias e convivem diariamente com a violência urbana. Tudo isso colabora para uma situação de estresse crônico, o que certamente gera inúmeras consequências para a vida das pessoas, das famílias e das comunidades.
Bruno Costa – Estudante do Curso de Farmácia do Instituto Federal do Paraná
Rodrigo Batista de Almeida – Professor do Instituto Federal do Paraná
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