Ela possui dezenas de milhões de seguidores nas redes sociais. E isso talvez diga mais sobre o Brasil atual do que muita pesquisa sociológica.
Vivemos um tempo em que fama deixou de ser consequência de admiração profunda e passou, muitas vezes, a nascer do choque, da ostentação, do escândalo e da capacidade de prender atenção. Quanto mais barulho alguém faz, mais visibilidade recebe.
A psicologia social explica que as pessoas tendem a seguir figuras que representam poder, status e ascensão rápida. Mesmo quando há controvérsias, muitos enxergam nesses personagens uma espécie de “vitória” sobre a vida difícil. O luxo exibido diariamente cria no imaginário popular a sensação de sucesso absoluto, ainda que ninguém saiba exatamente o preço emocional, ético ou social disso tudo.
E talvez o mais preocupante seja perceber o quanto parte da sociedade começou a normalizar comportamentos questionáveis quando eles vêm acompanhados de dinheiro, fama e entretenimento.
O problema não é apenas uma influenciadora.
O problema é o que estamos admirando.
Estamos formando uma geração que, muitas vezes, conhece mais influenciadores do que professores. Mais apostas do que livros. Mais ostentação do que valores.
Enquanto isso, pessoas honestas, silenciosas, trabalhadores que acordam às cinco da manhã, mães que lutam pelos filhos, professores que mudam vidas, profissionais éticos… quase não recebem atenção. Não viralizam. Não ganham milhões de seguidores.
A internet virou um espelho emocional do país.
E o espelho revela muito sobre aquilo que estamos alimentando dentro de nós.
Quando alguém investigado por crimes graves continua sendo idolatrado por milhões, talvez a discussão já não seja apenas sobre justiça. Talvez seja sobre o vazio coletivo de uma sociedade que passou a confundir influência com caráter, fama com valor e luxo com sucesso.
E isso deveria preocupar muito mais do que qualquer prisão.
Júnior Chisté, psicólogo,
escritor e palestrante.
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Jornal A Folha