Mas, para muita gente, basta o relógio avançar algumas horas para que tudo comece a mudar.
O fim da tarde chega e, junto com ele, aparece um incômodo difícil de explicar. A pessoa olha para o relógio, lembra que amanhã é segunda-feira e sente o corpo responder antes mesmo de qualquer problema acontecer. Vem a ansiedade, a irritação, a tristeza, a dificuldade para dormir. A cabeça começa a trabalhar: reuniões, cobranças, mensagens, prazos, pessoas, responsabilidades.
É o que vem sendo chamado de “síndrome de domingo à noite” ou ansiedade pré-segunda-feira.
Talvez o mais importante não seja dar um nome ao sentimento, mas entender o que ele está tentando dizer.
É natural sentir certa resistência ao final de um período de descanso. Afinal, trocar o ritmo mais livre do fim de semana pelas obrigações da semana exige uma mudança de rotina. O problema começa quando esse desconforto deixa de ser ocasional e passa a ocupar praticamente todos os domingos.
Quando descansar já não descansa.
Quando o domingo deixa de ser domingo porque a segunda-feira chegou antecipadamente dentro da nossa cabeça.
E então surge uma pergunta que talvez seja desconfortável, mas necessária: por que a ideia de voltar ao trabalho está causando tanto sofrimento?
Nem sempre a resposta está no trabalho em si. Às vezes está na sobrecarga, na dificuldade de estabelecer limites, na sensação permanente de precisar dar conta de tudo. Em outros casos, pode estar nas relações dentro do ambiente profissional, na falta de reconhecimento, nas cobranças excessivas ou simplesmente na percepção de que estamos vivendo uma rotina que deixou de fazer sentido.
Há pessoas que passam cinco dias esperando pelo fim de semana e, quando ele finalmente chega, passam parte dele sofrendo porque logo terminará.
É um ciclo cruel.
Vivemos falando sobre produtividade, resultados, metas e desempenho. Aprendemos a organizar agendas, cumprir horários e administrar compromissos. Mas pouco aprendemos sobre algo igualmente importante: como perceber quando a nossa relação com o trabalho começa a ultrapassar limites saudáveis.
Trabalhar faz parte da vida. Para muitos de nós, também representa realização, independência, propósito e identidade. Gostar da profissão pode transformar profundamente a maneira como enfrentamos os desafios cotidianos. Mas amar aquilo que fazemos não significa aceitar qualquer condição, carregar responsabilidades infinitas ou acreditar que precisamos estar disponíveis o tempo inteiro.
Nenhuma profissão deveria exigir que alguém sacrificasse todos os domingos apenas pensando em sobreviver às segundas-feiras.
Também precisamos abandonar a ideia de que suportar tudo é sinal de força. Às vezes, reconhecer que alguma coisa não está bem exige muito mais coragem do que continuar funcionando no automático.
Talvez o domingo à noite esteja apenas revelando aquilo que conseguimos esconder durante o restante da semana.
Por isso, antes de simplesmente repetir “odeio segunda-feira”, vale observar os sinais. Esse sentimento acontece ocasionalmente ou todas as semanas? A ansiedade está atrapalhando o sono? O trabalho ocupa os pensamentos mesmo durante os momentos de descanso? Existe medo de encontrar determinada pessoa ou enfrentar determinada situação? Há quanto tempo a vida profissional deixou de caber apenas dentro do horário profissional?
Essas perguntas não servem para transformar qualquer desânimo em doença. Servem para nos fazer olhar com mais atenção para nós mesmos.
Porque existe uma enorme diferença entre pensar “queria mais um dia de descanso” e sentir “não consigo enfrentar amanhã”.
Quando o sofrimento se torna frequente, intenso ou começa a interferir no sono, nas relações e na qualidade de vida, procurar ajuda profissional também é uma forma de cuidado.
No fundo, talvez a chamada síndrome de domingo à noite nos deixe uma reflexão muito maior sobre a vida que estamos construindo.
Não precisamos amar todas as segundas-feiras. Haverá semanas difíceis, dias cansativos e momentos em que desejaríamos simplesmente permanecer debaixo das cobertas.
Mas também não deveríamos precisar sobreviver de segunda a sexta para começar a viver somente no sábado.
A vida não pode acontecer apenas nos finais de semana.
E quando todo domingo termina com um aperto no peito, talvez seja hora de parar de perguntar apenas “como vou enfrentar mais uma semana?” e começar a perguntar:
“O que precisa mudar para que a minha semana também seja um lugar onde eu consiga viver?”
Vera Lucia Figueiredo Necher /
Professora, escritora e idealizadora do projeto Rich’s Volleyball Mulheres 40+, em Palmas(PR).@veralucia1234_

Jornal A Folha