Talvez você esteja esperando sentir segurança para começar. Esperando a ansiedade diminuir, a rotina se organizar, o momento melhorar. Enquanto isso, algo importante vai ficando para depois. E o adiamento traz um alívio imediato: por alguns instantes, você não precisa enfrentar a possibilidade de errar, se frustrar ou descobrir que ainda tem muito a aprender. Mas a tarefa continua ali, agora acompanhada de culpa.
Procrastinar nem sempre é falta de vontade. Às vezes, é uma maneira de evitar o desconforto que determinada tarefa desperta. Você adia uma conversa porque teme a resposta. Não inicia um projeto porque imagina que precisa fazê-lo perfeitamente. Deixa de cuidar de si porque acredita que já deveria estar muito melhor. Aos poucos, começar parece exigir uma força que você nunca tem.
Por isso, antes de se chamar de preguiçoso, procure compreender o que acontece dentro de você. Pergunte: “O que estou sentindo quando penso nessa tarefa? O que temo que aconteça se eu tentar? Estou diante de uma dificuldade real ou exigindo de mim uma garantia impossível?”.
Depois, diminua o tamanho do começo. “Preciso mudar minha vida” é grande demais para orientar uma ação. “Hoje vou escrever o primeiro parágrafo” oferece um caminho. Escolha uma tarefa e transforme-a em um passo concreto, pequeno o suficiente para caber no dia que você realmente tem.
Experimente dedicar cinco minutos a esse passo. Ao terminar, decida se pode continuar. O objetivo inicial é tornar o começo possível. Abrir o arquivo, separar o material, fazer a ligação: essas ações ajudam a atravessar a distância entre pensar e fazer.
Defina também quando e onde você vai agir. Em vez de “amanhã eu começo”, diga: “Depois do café, vou me sentar à mesa e trabalhar nisso por dez minutos”. Deixe o que precisa à mão e afaste, durante esse período, aquilo que costuma interrompê-lo.
Observe as frases que aparecem na sua mente. “Não vou conseguir”, “vai ficar ruim”, “já perdi tempo demais”. Trate-as como pensamentos que podem ser examinados. Pergunte quais fatos as sustentam e quais fatos ficaram de fora. Talvez uma resposta mais equilibrada seja: “Posso encontrar dificuldades e ainda assim fazer uma primeira tentativa”.
Ao final, registre o que fez, mesmo que tenha sido pouco. Perceber o próprio avanço ajuda a construir uma visão mais justa de si. Se não conseguiu, examine o obstáculo e ajuste o plano. A culpa, sozinha, não ensina como recomeçar.
E respeite o cansaço. Há dias em que você precisa agir apesar da resistência; em outros, precisa descansar, reorganizar demandas ou pedir ajuda. Aprender a distinguir essas situações também faz parte de cuidar da sua vida.
Você não precisa acordar todos os dias pronto para transformar tudo. Precisa reconhecer o que importa e encontrar uma maneira possível de se aproximar disso.
Talvez o passo de hoje pareça pequeno diante do caminho inteiro. Mas ele tem algo que nenhuma intenção, por mais bonita, consegue oferecer: começa a tornar real a vida que você deseja construir.
Júnior Chisté, psicólogo, “escritor e palestrante. “Atende através de “vídeo-chamadas, “(49) 9 9987 9071.

Jornal A Folha