Somos uma nação de dimensões continentais, abençoada por terras férteis, riquezas minerais, água em abundância, capacidade produtiva e um povo que, apesar das adversidades, continua acordando cedo, trabalhando, pagando impostos e tentando construir uma vida digna.
Temos praticamente tudo o que uma nação precisa para prosperar. Mas nos falta algo que não se encontra debaixo da terra ou nas reservas de petróleo: o compromisso de colocar o interesse público acima dos interesses particulares.
E é justamente aí que começa uma das maiores tragédias brasileiras.
A corrupção não representa apenas o dinheiro que desaparece dos cofres públicos. Representa a escola que poderia ter sido construída, o hospital que poderia ter sido equipado, a estrada que poderia ter sido recuperada e a criança que poderia ter recebido uma oportunidade diferente.
A corrupção não rouba apenas dinheiro. Rouba oportunidades, compromete futuros e, sobretudo, destrói a esperança de milhões de brasileiros.
Mas existe algo ainda mais perigoso: a construção de estruturas que tornam esses comportamentos possíveis, toleráveis e, em determinados ambientes, quase naturais.
Quando instituições públicas passam a ser tratadas como extensões de projetos pessoais, partidários ou de grupos econômicos, aquilo que deveria servir à população corre o risco de se transformar em instrumento de proteção de interesses.
É o aparelhamento institucional.
Ele se manifesta quando critérios técnicos são substituídos por conveniências políticas, quando cargos se tornam moedas de negociação e quando a lealdade a determinados grupos passa a valer mais do que a competência.
E não importa qual seja o partido, a ideologia ou o governante.
Uma instituição que deixa de servir à República para servir a um grupo compromete sua própria razão de existir.
O mais preocupante é perceber como parte da sociedade foi sendo conduzida a uma espécie de anestesia moral.
Escândalos surgem, investigações começam, acusações ocupam os noticiários e, pouco tempo depois, tudo parece desaparecer diante de um novo acontecimento.
A indignação dura alguns dias. A memória coletiva parece durar ainda menos.
E o Brasil continua.
Continua com trabalhadores enfrentando jornadas exaustivas para pagar suas contas. Com famílias esperando meses por atendimentos de saúde. Com professores tentando ensinar em condições precárias e jovens que precisam abandonar seus sonhos antes mesmo de descobrir do que seriam capazes.
Enquanto isso, uma parcela da classe política parece viver em uma realidade completamente diferente daquela enfrentada por quem sustenta o país.
E talvez um dos aspectos mais perversos seja a maneira como a corrupção passou a ser interpretada por alguns brasileiros.
Já não se pergunta apenas se determinado comportamento é certo ou errado. Pergunta-se quem o praticou.
Se pertence ao grupo político que defendemos, encontramos explicações e relativizamos os fatos. Se pertence ao grupo adversário, exigimos punição imediata.
Quando a honestidade passa a depender da preferência política, a sociedade começa a perder sua própria referência moral.
A corrupção não tem ideologia exclusiva. Não pertence à direita, à esquerda ou ao centro. Ela encontra espaço onde faltam fiscalização, transparência, independência institucional e consequências efetivas.
Nenhuma bandeira partidária deveria servir de abrigo para a desonestidade.
Precisamos compreender que políticos são representantes temporários da sociedade, não proprietários do Estado.
Instituições não pertencem a governos. Pertencem à República.
O dinheiro público não pertence a quem venceu uma eleição. Pertence à população que o produz por meio de seu trabalho e de seus impostos.
O Brasil precisa recuperar a capacidade de se indignar sem selecionar culpados conforme suas preferências.
Precisa de instituições independentes, fiscalização rigorosa, transparência e uma Justiça que atue com imparcialidade, respeitando as garantias legais de todos.
Mas precisa também de uma transformação cultural.
Porque a corrupção também encontra terreno fértil quando a sociedade normaliza pequenos privilégios indevidos, celebra a esperteza acima da honestidade e aceita que as regras sejam diferentes conforme a posição social.
Não podemos exigir integridade de nossos representantes enquanto tratamos a ética como algo negociável em nossas próprias escolhas.
O Brasil avançou em diferentes áreas ao longo de sua história. Seria injusto ignorar suas conquistas. Mas também seria ingenuidade fechar os olhos para aquilo que impede seu potencial de se transformar em prosperidade compartilhada.
O país não precisa de salvadores da pátria. Precisa de cidadãos conscientes, instituições fortes e governantes que compreendam a diferença entre exercer o poder e se apropriar dele.
Uma nação não se torna verdadeiramente grande apenas pela riqueza que possui, mas pela dignidade com que administra essa riqueza.
Talvez a maior tristeza seja perceber que milhões de brasileiros passam a vida inteira lutando para sobreviver em um país que possui recursos suficientes para oferecer condições muito melhores de existência.
E então chegamos à pergunta que deveria incomodar todos aqueles que ocupam posições de poder:
Quantas gerações ainda precisarão pagar o preço da corrupção, dos privilégios e do uso político das instituições?
Até quando continuaremos aceitando que o futuro de um país inteiro seja comprometido para preservar os interesses de alguns?
O Brasil não está condenado ao fracasso. Mas também não sairá de suas dificuldades apenas com discursos emocionantes, campanhas publicitárias sofisticadas ou promessas renovadas a cada eleição.
Sair da lama exige coragem para enfrentar interesses poderosos, compromisso com a verdade e disposição para cobrar responsabilidades, inclusive daqueles em quem votamos.
Porque existe uma diferença imensa entre amar um país e simplesmente defender um governo.
Amar o Brasil é ter coragem de cobrar honestidade de todos, sem exceção.
O Brasil tem riquezas. Tem inteligência. Tem trabalhadores. Tem capacidade de produzir, inovar e crescer.
O que não pode continuar tendo é sua esperança permanentemente sequestrada pela corrupção e pela utilização das instituições em benefício de interesses particulares.
Talvez a maior pobreza de uma nação tão rica não esteja na falta de recursos, mas na falta de compromisso de parte daqueles que recebem a responsabilidade de administrá-los.
E enquanto a corrupção continuar sendo tratada como um problema apenas quando envolve o adversário político, o Brasil seguirá desperdiçando algo que nenhuma riqueza natural será capaz de devolver:
O tempo de uma população que merece viver em um país muito melhor do que aquele que lhe tem sido entregue.
Júnior Chisté, psicólogo, “escritor e palestrante. “Atende através de “vídeo-chamadas, “(49) 9 9987 9071.

Jornal A Folha