A maior parte das pessoas consegue se orientar no tempo e no espaço e tem uma boa noção da realidade, como saber quem é, em qual dia da semana se encontra, que vínculo mantém com as pessoas ao redor e o grau de confiança que pode depositar em cada pessoa do seu convívio. Em uma situação de delírio, o indivíduo passa a desconfiar, por exemplo, de que há pessoas tentando fazer algo ruim contra ele, como exercer um controle, invadir a sua mente ou tramar uma perseguição. Isso é o que se entende por delírio persecutório.
Mas há outros tipos de delírio, como o delírio de grandeza, pelo qual uma pessoa passa a acreditar que é um ser muito especial, com uma missão muito importante. Os delírios de grandeza foram muito bem explorados pelas tão famigeradas piadas comuns nos anos 1980 e 1990, em que um paciente, em um hospício, afirmava ser Jesus Cristo ou Napoleão Bonaparte. Sempre há menção a figuras muito importantes na sociedade ou na História. Em um caso de esquizofrenia, que me foi relatado, o homem afirmava ser o presidente da República. Uma pessoa, em um delírio de grandeza, nunca vai afirmar, por exemplo, que é suplente de vereador de um pequeno município do interior. Sempre será uma figura muito forte no imaginário popular e que concentra grande poder ou notoriedade.
Em um outro caso, que aconteceu em 2015, dois irmãos de Santa Catarina, Dealberto e Fernando, viajaram até o México onde participariam de um casamento, em Playa del Carmen. Eles ficaram mais uns dias aproveitando o lugar. Em uma noite, misturaram álcool e ecstasy e entraram em surto psicótico. Dealberto falou para o irmão que a máfia russa estava atrás deles e que era preciso entrar em contato com várias autoridades, como a Interpol, a CIA e o Itamaraty. Com isso em mente, empreenderam uma fuga, a pé. Em um momento, Fernando, já cansado, falou para o irmão continuar, porque ele mesmo não teria mais fôlego para correr. Dealberto segue, invade um prédio, sobe até o terceiro andar, tenta saltar para o outro prédio vizinho e acaba caindo. A queda foi fatal.
Nesse caso, um delírio de grandeza (evidenciado pela menção a grandes instituições, como CIA, Interpol e Itamaraty) foi misturado a um delírio persecutório (por acreditarem que a máfia russa estaria atrás deles). Mas aqui cabe uma observação. O delírio foi motivado pelo uso de uma substância, o que exclui o diagnóstico de esquizofrenia.
No entanto, em alguns casos, a pessoa tem esquizofrenia (embora ainda não manifestada) e o primeiro surto (que ocorre, geralmente, entre os 20 e 30 anos de idade) surge após o uso de uma substância psicotomimética (capaz de induzir um surto psicótico).
Pode parecer um pouco confuso, já que eu falei que o surto psicótico provocado por substâncias de abuso deve ser distinguido do surto psicótico da esquizofrenia, embora algumas pessoas só vão descobrir a doença pelo uso de uma substância e seus efeitos decorrentes. Então, é preciso diferenciar bem cada caso. Há a doença, que é diferente dos efeitos por uso de drogas, mas há também a doença que se manifesta pelo uso de drogas.
No âmbito do transtorno psicótico, algumas pessoas podem apresentar um delírio persecutório de forma mais sutil, o que pode prejudicar o diagnóstico. Um exemplo é o relato de uma pessoa sobre uma suposta perseguição de colegas da faculdade ou uma suposta perseguição de um professor. Não é tão fácil separar o joio do trigo, já que trabalhos de faculdade podem se constituir em verdadeiras provas de resistência, empatia e resiliência. Por outro lado, há professores que (infelizmente) perseguem alunos, além dos que assediam alunos.
Mesmo nesses casos, em que é difícil analisar o caso a partir de um relato inicial, outras informações complementares, provenientes da própria pessoa sob investigação diagnóstica, ou de familiares, ajudarão o médico a definir o diagnóstico, considerando a possibilidade de esquizofrenia ou afastando essa hipótese.
Rodrigo Batista de Almeida – Professor do Instituto Federal do Paraná.

Jornal A Folha