publicada no dia 04 de outubro de 2025, “sobre o amor para com os pobres”, o Papa Leão XIV, falou com profundidade sobre a prática da esmola, um dos pilares cristãos e católicos durante o Tempo da Quaresma: “Convém dizer uma última palavra sobre a esmola, que hoje não goza de boa fama, frequentemente nem mesmo entre os cristãos. Não só é raramente praticada, como às vezes é até desprezada. Por um lado, reafirmo que o auxílio mais importante para uma pessoa pobre é ajudá-la a ter um bom trabalho, para que possa ter uma vida mais condizente com a sua dignidade, desenvolvendo as suas capacidades e oferecendo o seu esforço pessoal. Assim, a esmola continua a ser um momento necessário de contato, encontro e identificação com a condição do outro” (n. 115).
Para quem ama verdadeiramente, é evidente que a esmola não isenta as autoridades competentes das suas responsabilidades, nem elimina o empenho organizativo das instituições, muito menos substitui a legítima luta pela justiça. Ela convida, porém, a parar e a olhar nos olhos a pessoa pobre, tocando-a e partilhando com ela algo do que se tem. Em todo o caso, a esmola, mesmo que pequena, infunde pietas numa vida social em que todos se preocupam com o seu próprio interesse pessoal. Diz o livro dos Provérbios: “O homem de olhar generoso será abençoado, porque dá do seu pão ao pobre” (Pr 22, 9; cf. n. 116).
Esmola na Tradição Bíblica e dos Santos Padres da Igreja
O Papa Leão 14 cita textos tanto do Antigo como o Novo Testamento que contêm verdadeiros hinos à esmola: “Todavia, sê generoso para com o miserável, e não o faças esperar pela esmola. […] Encerra a tua esmola nos teus celeiros, e ela te livrará de todo o mal (Sir 29, 8.12). E Jesus retoma este ensinamento: “Vendei os vossos bens e dai-os de esmola. Arranjai bolsas que não envelheçam, um tesouro inesgotável no Céu” (Lc 12, 33).
A São João Crisóstomo atribuía-se a seguinte exortação: “A esmola é a asa da oração. Se não acrescentares uma asa à tua oração, ela mal poderá voar”. E São Gregório de Nazianzo concluía uma das suas famosas orações com estas palavras: “Se, portanto, me ouvirdes enquanto é tempo, ó servos de Cristo, irmãos e coerdeiros visitemos Cristo, cuidemos de Cristo, alimentemos Cristo, vistamos Cristo, acolhamos Cristo, honremos Cristo: não apenas com uma refeição, como alguns; não apenas com perfumes, como Maria; não apenas com um túmulo, como José de Arimatéia; não apenas com os ritos para a sepultura, como Nicodemos, que amava Cristo apenas pela metade; não apenas com ouro, incenso e mirra, como os Magos; mas, visto que o Senhor quer misericórdia e não sacrifício […] ofereçamos esta aos pobres, para que, quando partirmos deste mundo, sejamos acolhidos por eles nos templos eternos” (cf. n. 117).
Esmolar pela causa do amor
O Papa Prevost, propõe por fim, que o amor e as convicções mais profundas devem ser alimentados, e isso faz-se com gestos. Permanecer no mundo das ideias e das discussões, sem gestos pessoais, frequentes e sinceros, será a ruína dos nossos sonhos mais preciosos. Por esta simples razão, como cristãos, não renunciamos à esmola. E será sempre melhor fazer alguma coisa do que não fazer nada. Mas precisamos de praticar a esmola para tocar a carne sofredora dos pobres. O amor cristão supera todas as barreiras, aproxima os que estão distantes, une os estranhos, torna familiares os inimigos, atravessa abismos humanamente insuperáveis, entra nos meandros mais recônditos da sociedade. Por sua natureza, o amor cristão é profético, realiza milagres, não tem limites: é para o impossível. Assim, uma Igreja que não coloca limites ao amor, que não conhece inimigos a combater, mas apenas homens e mulheres a amar, é a Igreja de que o mundo hoje precisa (cf. nn. 118-119).
Dom Edgar Xavier Ertl
Diocese de Palmas-Francisco Beltrão
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