Há um Brasil que ninguém enxerga quando se olha apenas para as manchetes ou para as promessas que se repetem a cada quatro anos. Um Brasil que pulsa nas plantações, no suor de quem acorda cedo e ainda acredita. Um Brasil de fartura, de riqueza incalculável, mas saqueado, todos os dias, não apenas por mãos corruptas, mas por uma cultura de descaso que nos anestesiou a alma.
Não é uma questão de partido. Não é sobre ideologia. É sobre a falência da consciência. Estamos deixando de pensar. A inteligência artificial avança, mas o pensamento humano regride. Lemos pouco, escrevemos menos ainda, e já não sabemos mais sequer fazer uma conta sem pedir ajuda ao celular. A tecnologia nos conectou com o mundo, mas nos desconectou da vida. O silêncio virou incômodo. O tempo livre, um peso. E pensar... pensar se tornou cansativo.
A educação? Essa foi empurrada para um porão escuro e abafado. Em vez de formar cidadãos, formamos consumidores de distrações. E os poucos representantes que deveriam nos devolver o direito à dignidade intelectual, quase sempre estão ocupados demais com as próprias conveniências. Criam leis que não se aplicam à realidade da sala de aula. Fingem investir, quando na verdade distribuem esmolas em forma de promessas.
Nos tornamos surdos ao essencial. Incapazes de ouvir o outro, porque não sabemos mais sequer nos escutar. Vivemos cercados de ruídos, notificações, vídeos, polêmicas vazias, e esquecemos de como é bonito o som de um vento na tarde ou de um velho contando sua história. E pior: começamos a roubar o tempo e o espaço dos mais velhos. Tirámos deles o respeito, a autoridade, o lugar de sabedoria. Lastimável é pouco.
Somos uma geração que sabe tudo, mas sente pouco. Que opina sobre tudo, mas entende quase nada. Uma geração que, mesmo com acesso ao mundo todo, desconhece a si mesma. E nessa ausência de profundidade, a vida vai se tornando um teatro onde todos atuam, mas ninguém se reconhece.
Mas ainda há tempo.
Tempo de voltar para o que é real. De olhar para o país com os olhos de quem sonha e as mãos de quem faz. De entender que, se continuarmos deixando a educação para depois, estamos assinando nossa sentença de mediocridade. De perceber que a verdadeira revolução não está no grito, mas no exemplo. No pai que senta ao lado do filho para fazer o dever. No jovem que decide pensar antes de repetir. No cidadão que prefere a verdade à conveniência.
Não somos apenas vítimas de um sistema falido. Somos cúmplices, quando nos omitimos. Somos responsáveis, quando nos calamos. E seremos herdeiros, inevitavelmente, do que hoje deixarmos de plantar.
Que este país, ainda tão bonito e tão roubado, acorde. Mas que o despertar comece em nós.
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