Mas, ao contrário do que muitos imaginam, o nosso deserto não tem areia nem sol escaldante. Ele tem agenda cheia, notificações constantes, preocupações financeiras, responsabilidades familiares e cobranças silenciosas.
A Quaresma recorda os quarenta dias em que Jesus Cristo esteve no deserto. Lá, Ele enfrentou tentações, silêncio e provações. Aqui, enfrentamos outras: a impaciência no trânsito, o cansaço acumulado, o medo do futuro, o excesso de tarefas e a dificuldade de desacelerar.
O deserto de hoje é interno.
Vivemos uma cultura que nos exige produtividade permanente. Precisamos dar conta do trabalho, da casa, dos filhos, dos pais, da aparência, da saúde. Muitas vezes, fazemos tudo — menos cuidar do que se passa dentro de nós.
E é justamente aí que a Quaresma se torna atual.
Jejum no cotidiano
Quando se fala em jejum, pensamos logo em comida. Mas talvez o jejum mais necessário hoje seja outro.
Jejum da pressa.
Jejum das palavras duras.
Jejum da comparação constante.
Jejum da necessidade de ter razão o tempo todo.
Quantas discussões poderiam ser evitadas se fizéssemos o jejum do orgulho? Quantas relações seriam mais leves se jejuássemos da crítica?
No cotidiano, jejuar pode significar escolher responder com serenidade em vez de reagir com irritação. Pode significar desligar o celular mais cedo e conversar mais. Pode significar dizer “não” para o excesso e “sim” para o essencial.
Caridade além da doação
A caridade também ganha outro sentido quando trazida para a vida real.
Ela aparece quando escutamos alguém sem interromper.
Quando acolhemos uma dor que não é nossa.
Quando oferecemos ajuda mesmo cansadas.
Quando perdoamos.
Num mundo cada vez mais polarizado, a caridade é um ato de coragem. É escolher o amor em vez do julgamento.
O silêncio em meio ao barulho
Talvez o maior desafio da Quaresma hoje seja o silêncio. Estamos sempre conectados — mas raramente interiorizados.
Reservar alguns minutos do dia para respirar, refletir e rezar pode parecer pouco. Mas é revolucionário.
No silêncio, percebemos o que está desalinhado. Identificamos o que precisa mudar. Encontramos forças para continuar.
A Quaresma nos ensina que transformação não acontece no barulho, mas na escuta.
Um tempo de reorganizar a vida
A Quaresma não é um período de tristeza, mas de ajuste. É como reorganizar uma casa que ficou desordenada com o tempo. Nada muda de uma vez, mas cada pequena arrumação faz diferença.
É tempo de rever prioridades.
De fortalecer vínculos.
De cuidar da saúde emocional.
De retomar valores esquecidos.
No meio da rotina intensa, a Quaresma sussurra: desacelere. Reflita. Recomece.
Porque, no fundo, o maior sentido desse tempo não está nas renúncias externas, mas na conversão interior — palavra que significa mudança de direção.
Que esses quarenta dias não passem apenas como mais um período do calendário. Que sejam um caminho de amadurecimento, consciência e fé vivida no concreto da vida.
E que, quando a Páscoa chegar, não celebremos apenas uma data, mas a experiência real de termos nos tornado um pouco melhores — mais pacientes, mais generosos, mais humanos.
A verdadeira ressurreição começa no cotidiano.
Vera Lucia Figueiredo Necher
Professora, escritora e
idealizadora do projeto
Rich’s Volleyball Mulheres 40+, em Palmas(PR). @veralucia1234_
