Mas isso ocorre em todos os estados do Brasil. Não estamos falando de um atraso pontual, mas de um padrão que começa a se normalizar, e isso deveria nos preocupar. Cada minuto parado representa combustível queimado sem propósito, compromissos perdidos, entregas atrasadas, consultas adiadas e um desgaste emocional silencioso que ninguém contabiliza.
A resposta oficial é conhecida: alto custo para a empresa, limitações da legislação trabalhista e ausência de tecnologia adequada para operações noturnas. Tudo isso pode até ser verdade. Mas quando justificativas começam a soar como rotina, é sinal de que a pergunta principal está sendo evitada: estamos realmente buscando soluções ou apenas nos acomodando às dificuldades?
O Brasil, historicamente, convive com a lógica da adaptação: “é assim mesmo”. Mas esse tipo de resignação tem um preço alto. Obras são essenciais, ninguém discute isso. A melhoria da rodovia é necessária, urgente e bem-vinda. O que se questiona não é o “fazer”, mas o “como fazer”.
Nos Estados Unidos, por exemplo, obras em rodovias de grande fluxo costumam ocorrer à noite, justamente para preservar a fluidez durante o dia. Há investimento em iluminação robusta, planejamento logístico e sinalização eficiente. Não se trata de perfeição, mas de prioridade: o tempo das pessoas é tratado como um ativo valioso. Aqui, ainda parece ser um recurso descartável. A falsa dicotomia entre custo e eficiência
Dizer que operar à noite é caro pode ser tecnicamente correto. Mas caro para quem? Para a empresa? E o custo social imposto a milhares de pessoas todos os dias, esse entra em qual planilha?
Quando um caminhoneiro perde uma janela de entrega, quando um trabalhador chega atrasado ou quando uma família perde horas preciosas da sua rotina, há um impacto real. Invisível nos relatórios, mas concreto na vida.
Talvez o problema não seja a falta de tecnologia, mas a falta de prioridade em adotá-la. Talvez não seja a legislação, mas a falta de criatividade em trabalhar dentro dela. E talvez, acima de tudo, falte aquilo que mais diferencia sistemas eficientes de sistemas ineficientes: inconformismo com o prejuízo coletivo.
Até quando? A pergunta que fica não é se a obra deve acontecer, isso é indiscutível. A pergunta é: até quando aceitaremos que ela aconteça às custas de uma rotina travada, de horas perdidas e de um desgaste que se acumula dia após dia? Sempre há alternativas. Sempre há caminhos. O que nem sempre há é disposição para buscá-los.
E enquanto isso, na fila que não anda, o tempo, esse sim, segue passando. E não volta. Estamos em ano eleitoral, estou aguardando políticos levantarem essa bandeira com o objetivo de buscarem soluções inteligentes. Sim, é possível.
Júnior Chisté, psicólogo,
escritor e palestrante.
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