Mas quem vive a educação sabe que ser professor vai muito além disso. Por trás de cada aula existem desafios que dificilmente aparecem para quem observa a escola apenas do lado de fora.
O professor não entra em uma sala levando somente conteúdos. Ele encontra diferentes histórias, comportamentos, dificuldades, expectativas e realidades. Em uma mesma turma há o aluno que aprende rapidamente, aquele que precisa ouvir a explicação várias vezes, o que não consegue se concentrar, o que busca atenção constantemente e também aquele que permanece em silêncio, mas talvez esteja enfrentando situações que ninguém conhece.
E todos precisam ser vistos.
Esse talvez seja um dos maiores
desafios da educação atual: ensinar uma turma inteira sem esquecer que cada aluno é único.
Ao mesmo tempo, o professor precisa cumprir conteúdos, preparar atividades, corrigir trabalhos e avaliações, registrar notas, elaborar planejamentos, preencher documentos e participar de reuniões. Precisa estudar, atualizar-se e encontrar novas maneiras de ensinar quando percebe que a primeira explicação não foi suficiente.
E existe ainda um desafio que cresce dentro das escolas: conquistar a atenção.
Vivemos em uma época de estímulos rápidos. Celulares, vídeos curtos, jogos e redes sociais acostumaram crianças e adolescentes a receber informações em poucos segundos. Diante disso, o professor precisa transformar uma aula de 50 minutos em algo capaz de competir com um universo inteiro de estímulos.
É preciso criatividade. Reinventar estratégias. Criar jogos, desafios, experiências, projetos e maneiras diferentes de apresentar aquilo que precisa ser aprendido.
Mas há algo que nenhuma tecnologia substitui: a relação humana.
Muitas vezes, antes de ensinar Português, Matemática, História ou Ciências, o professor precisa ensinar respeito, responsabilidade, organização, convivência, limites e empatia.
Em alguns dias, precisa ser mediador de conflitos. Em outros, precisa perceber que determinada mudança de comportamento pode significar um pedido silencioso de ajuda.
E tudo isso exige equilíbrio emocional.
O professor também se cansa. Também tem problemas pessoais. Também enfrenta dias difíceis. Entretanto, quando a porta da sala se abre, dezenas de olhos esperam alguma coisa dele.
Talvez uma explicação.
Talvez incentivo.
Talvez simplesmente alguém que diga: “Você consegue”.
Também precisamos falar sobre a relação entre escola e família. Educação nunca deveria ser responsabilidade de apenas um lado. Quando família e escola caminham juntas, estabelecendo limites, responsabilidades e objetivos, quem ganha é o aluno.
O professor pode ensinar, orientar, incentivar e oferecer oportunidades, mas não consegue substituir sozinho todas as responsabilidades que fazem parte da formação de uma criança ou adolescente.
Por isso, valorizar um professor não significa apenas homenageá-lo em datas especiais.
É respeitar seu trabalho diariamente.
É compreender que estabelecer limites também é educar. Que cobrar uma atividade não significa perseguir um aluno. Que corrigir um comportamento inadequado também faz parte da formação. E que, muitas vezes, por trás de uma cobrança existe justamente alguém que acredita que aquele estudante pode fazer melhor.
Apesar de todos esses desafios, há momentos que explicam por que tantos professores continuam escolhendo essa profissão.
É quando uma criança finalmente compreende aquilo que parecia impossível.
Quando um aluno que dizia “eu não consigo” levanta a mão e responde corretamente.
Quando alguém volta, anos depois, e diz: “Professora, eu nunca esqueci aquilo que você me ensinou”.
Nesse instante percebemos que algumas das maiores conquistas da educação não aparecem em boletins.
Elas aparecem nas pessoas.
Ser professor é trabalhar diariamente com algo que não oferece resultados imediatos. É plantar conhecimento, valores e possibilidades sem saber exatamente quando aquela semente irá florescer.
Algumas florescem durante o ano letivo.
Outras levam anos.
E talvez algumas só sejam percebidas quando aquele aluno já for adulto e compreender que, em algum momento de sua caminhada, existiu um professor que acreditou nele.
Por isso, quando perguntarem quais são os desafios de ser professor, poderemos listar muitos: indisciplina, excesso de responsabilidades, falta de atenção, cobranças, mudanças sociais, tecnologia, dificuldades de aprendizagem e tantas outras questões.
Mas existe também algo muito maior.
A responsabilidade de participar da construção de uma vida.
E talvez seja justamente por isso que ensinar seja tão difícil — e, ao mesmo tempo, tão extraordinário.
Porque todos os dias um professor entra em uma sala sem saber exatamente o tamanho da marca que deixará.
Mas deixa.
Vera Lucia Figueiredo Necher /
Professora, escritora e idealizadora do projeto Rich’s Volleyball Mulheres 40+, em Palmas(PR).@veralucia1234_

Jornal A Folha