O PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) mostrou que 73% dos nossos estudantes de 15 anos não atingiram sequer o nível básico de proficiência em matemática. Estamos falando de adolescentes que, em muitos casos, passaram praticamente a vida inteira dentro do sistema educacional e chegam aos 15 anos com dificuldade para resolver problemas matemáticos básicos do cotidiano.
E aqui está o ponto que mais me preocupa: esses adolescentes não ficarão para sempre com 15 anos.
Daqui a pouco eles terão 20. Depois 25, 30.
Serão trabalhadores, empreendedores, técnicos, profissionais, pais e mães. Terão que entender um financiamento, comparar juros, administrar o próprio dinheiro, interpretar números, compreender uma planilha, tomar decisões e disputar empregos em um mercado cada vez mais tecnológico.
Por isso, quando sete em cada dez jovens apresentam uma deficiência tão importante em matemática, não estamos diante apenas de um problema da escola. Estamos olhando para um problema do futuro do país.
A UNESCO considera leitura e matemática competências fundamentais porque elas sustentam aprendizagens posteriores. E alerta que quem não desenvolve essas habilidades básicas chega despreparado justamente aos setores profissionais cada vez mais complexos, técnicos e digitais.
Então pense na contradição.
Falamos todos os dias de inteligência artificial. Falamos de robótica. Programação. Inovação. Novas profissões. Competitividade.
Mas uma parcela enorme dos nossos adolescentes ainda está tentando dominar aquilo que deveria servir de base para todo o restante.
Não existe transformação digital capaz de compensar indefinidamente uma formação básica frágil.
E isso acaba chegando ao bolso de todo mundo.
O Banco Mundial trata conhecimento, habilidades, saúde e experiência como capital humano, justamente porque são essas capacidades que determinam boa parte da produtividade futura de uma sociedade. Em relatório divulgado em 2026, a instituição estimou que as deficiências brasileiras na formação de capital humano estão associadas a uma perda de aproximadamente 40% dos ganhos futuros potenciais das crianças brasileiras.
É aqui que a discussão deixa de ser apenas pedagógica.
Educação ruim também vira economia ruim.
Vira trabalhador com menos oportunidades.
Empresa com dificuldade para encontrar profissionais qualificados.
Menor produtividade.
Menor capacidade de inovação.
Mais desigualdade.
E uma enorme quantidade de talento humano desperdiçado.
E existe outra coisa que precisamos ter coragem de admitir: matricular uma criança não significa necessariamente que ela esteja aprendendo.
É possível avançar de ano, receber certificado e permanecer carregando lacunas enormes de aprendizagem. A própria UNESCO chama atenção para isso: frequentar a escola, por si só, não garante aprendizagem.
Por isso talvez este seja o número que deveria nos incomodar: 15 anos.
Um adolescente chega aos 15 anos depois de milhares de horas entre salas de aula, professores, provas, trabalhos, livros e avaliações.
Se, depois de tudo isso, sete em cada dez ainda não alcançam o nível básico esperado em matemática, precisamos parar de perguntar somente:
“O aluno passou de ano?”.
E começar a fazer uma pergunta muito mais desconfortável:
“Ele aprendeu?”.
Porque um país pode construir estradas, prédios, universidades e comprar computadores.
Mas existe uma infraestrutura que não aparece nas fotografias de inauguração: a capacidade de pensar de sua população.
E quando essa infraestrutura começa a falhar, talvez o prejuízo não apareça amanhã.
Ele aparece daqui a dez ou vinte anos.
Quando aquela criança que não aprendeu matemática precisar tomar decisões num mundo que exigirá dela cada vez mais raciocínio.
E aí talvez seja tarde demais para voltar àquela sala de aula e recuperar o tempo perdido.
Júnior Chisté, psicólogo, “escritor e palestrante. “Atende através de “vídeo-chamadas, “(49) 9 9987 9071.Júnior Chisté, psicólogo, “escritor e palestrante. “Atende através de “vídeo-chamadas, “(49) 9 9987 9071.

Jornal A Folha