Há quatro etapas envolvidas na Farmacocinética, que é a parte da Farmacologia dedicada a investigar a movimentação dos fármacos pelo corpo. Após o fármaco ser absorvido (entrar para a corrente circulatória) e ser distribuído (ser direcionado a alguns órgãos), chega o momento em que ele sofrerá uma alteração na sua molécula, o que configura a metabolização. Na sequência, o fármaco será eliminado do organismo.
A metabolização, também chamada de biotransformação, envolve enzimas que atuam sobre a molécula do fármaco promovendo alterações que facilitam a sua excreção. Isso é muito importante, pois as características que favorecem a entrada do fármaco na corrente circulatória são totalmente diferentes das necessárias para a sua eliminação. E para que o fármaco não fique eternamente preso no organismo, é preciso essa ajudinha.
A maioria dos fármacos (ou dos metabólitos, que são o resultado da metabolização) será eliminada pela via renal. Para que uma substância entre com facilidade na urina é preciso reunir algumas caraterísticas, sendo a mais importante a hidrossolubilidade, ou seja, a facilidade com que uma substância se dissolve em água. Substâncias hidrossolúveis são facilmente excretadas na urina. Mas, em muitos casos, o fármaco apresenta um perfil muito mais lipossolúvel do que hidrossolúvel. Por isso é tão importante que ele passe por uma etapa que antecede a excreção e que facilite a sua expulsão do corpo.
A metabolização, portanto, é uma etapa fundamental para preparar o fármaco para a excreção, apesar de haver fármacos que não passam por esse processo, sendo excretados de forma inalterada. Para aqueles que serão eliminados pela urina, somente a quantidade de fármaco que foi efetivamente absorvida é que será metabolizada e excretada pela urina. Parte do que se administra acaba nem sendo absorvida. Essa parte é excretada, geralmente, de forma inalterada nas fezes, e isso é relativamente comum.
O que é importante frisar é que são muitos os itinerários que um fármaco pode percorrer no organismo e por isso é tão importante uma área dedicada a estudar tudo que se relaciona à movimentação dos fármacos no corpo.
Dos fármacos que irão se submeter à metabolização, o resultado é a obtenção de metabólitos, que podem ser inativos ou ativos. O ideal é que os metabólitos fossem todos inativos, pois assim eu encerro o efeito e, caso seja preciso uma continuidade no efeito (no caso das doenças crônicas), o paciente usa outras doses (o que chamamos de tratamento contínuo). No caso dos metabólitos ativos, há um “eco” no efeito e isso não é bom. Mas quem desenvolve um medicamento não é o senhor supremo do universo que controla tudo e todos. Então, na prática, não conseguimos controlar vários aspectos inerentes ao fármaco. Apenas estudamos como tudo ocorre e descrevemos. Não é sobre “como deveria ser”. É sobre “como realmente as coisas são”.
Muitos acreditam que o cientista tem um poder quase sobrenatural, mas o cientista da área da Farmacologia é muito mais um pesquisador que esboça como os processos farmacológicos se apresentam, do que um pesquisador que consegue intervir diretamente nesses processos. É claro que não podemos diminuir o impacto da Farmacologia na vida das pessoas. Mesmo sendo difícil modificar algumas características de um fármaco, o farmacologista busca (e, com sorte, encontra) moléculas biologicamente ativas que apresentam um bom perfil de eficácia e segurança. É aí que surge um medicamento.
Enfim, seja gerando metabólitos ativos ou inativos, a metabolização é essencial para que os fármacos possam deixar o organismo. Se um fármaco ficasse eternamente represado no corpo, o efeito seria permanente, o que não é interessante. Imagine se o efeito permanente fosse prejudicial. A pessoa teria que conviver para sempre com os efeitos adversos ou com uma intoxicação. Então, que bom que há a tendência de os fármacos serem metabolizados. Fármacos metabolizados são facilmente excretáveis.
Rodrigo Batista de Almeida – Professor do Instituto Federal do Paraná.

Jornal A Folha