A Farmacocinética é a parte da Farmacologia que estuda a movimentação dos fármacos no organismo. Ela se volta para os seguintes processos: absorção, distribuição, metabolização e excreção.
Na absorção, o fármaco entra para a corrente circulatória. Já na distribuição, o fármaco sai da corrente circulatória e entra nos tecidos e órgãos. Essa é uma condição para o efeito farmacológico, porque, salvo raras exceções, o fármaco não irá atuar no sangue. Por isso, ele precisa ser direcionado para o local que está afetado pela doença.
O primeiro fator que leva o fármaco a sair da corrente circulatória é a diferença de concentração, ou seja, há muito fármaco no sangue e pouco (ou nenhum) fármaco nos tecidos periféricos. Isso já basta para iniciar o processo de distribuição, pois o corpo é constituído por células, e há uma tendência em igualar a concentração de qualquer substância entre as diferentes células. Isso não quer dizer que todas as células receberão a mesma quantidade de fármaco, porque, apesar de haver essa tendência, é apenas uma tendência. Há outros detalhes que podem dificultar a entrada de fármacos em alguns compartimentos, enquanto outros facilitam a sua penetração.
Desse modo, os fármacos só irão ser direcionados para locais que permitam a sua entrada, e a distribuição, portanto, é sempre heterogênea. Há locais, inclusive, com especializações que constituem verdadeiras barreiras à entrada de muitas das substâncias que circulam no sangue. É o caso do cérebro, protegido pela barreira hematoencefálica, do feto, protegido pela placenta, e dos testículos, protegidos pela barreira hemato-testicular.
O cérebro não pode ficar exposto a qualquer “porcaria” que se encontre no sangue, pois é constituído por neurônios, células altamente especializadas, que não são repostas no caso de perda. Portanto, se uma substância neurotóxica atingir o cérebro, neurônios morrerão e, a depender da extensão do dano, haverá perda funcional para o tecido nervoso.
No caso do feto, este é um novo ser em formação. Sobretudo nos primeiros três meses de gestação, período em que ocorre a organogênese (o desenvolvimento dos órgãos), um dano seria irreversível. Infelizmente, algumas substâncias conseguem transpor a barreira placentária e interferem no desenvolvimento fetal. Um exemplo clássico é a tragédia da talidomida. A talidomida, indicada para hanseníase, ficou popular entre gestantes, nos anos 1950, para aliviar náusea. Só que essa substância leva ao nascimento de bebês sem pernas e sem braços ou, em alguns casos, com ausência somente dos braços, ou, ainda, com os quatro membros presentes, mas menores e disfuncionais. A maioria das vítimas nasceu nos anos 1950 e 1960, mas ainda em 2010 surgiram novos casos, apesar do rigor na prescrição, na dispensação e na utilização de talidomida.
Em relação aos testículos, esse local exige uma proteção adicional por ser onde os espermatozoides são produzidos. Um dano nessas células, que são os gametas masculinos, poderia repercutir em um novo ser. Portanto, existe essa estratégia de tentar dificultar a entrada de substâncias que circulam no sangue para o interior dos tecidos.
Nem todos os tecidos que recebem uma quantidade de fármaco irão sofrer uma intervenção farmacológica. Entrar em um tecido é uma coisa. Mexer em algo é outra. No caso de um medicamento usado para dor de cabeça, por exemplo, os insumos ativos (os fármacos) não irão somente para a cabeça. Eles atingem diferentes locais do organismo, inclusive a região da cabeça. De vez em quando, sempre tem umas postagens em redes sociais questionando “Como é que o medicamento para dor de cabeça sabe que ele tem que ir para a cabeça?”. Na verdade, ele não sabe. Ele nem tem consciência. É apenas uma molécula que por características estruturais consegue ser deslocado até a cabeça e, uma vez lá, consegue interferir em algum processo, colaborando para a supressão da dor. Mas, certamente, o fármaco também atingiu outros compartimentos, apesar de não fazer (ou não precisar fazer) efeito nesses outros locais.
Rodrigo Batista de Almeida – Professor do Instituto Federal do Paraná.

Jornal A Folha