Estudar, construir uma carreira, administrar um negócio, ocupar posições de liderança ou simplesmente ter independência financeira foram conquistas que exigiram gerações de mulheres dispostas a atravessar limites que pareciam intransponíveis.
Hoje, encontramos mulheres nas salas de aula, hospitais, empresas, propriedades rurais, universidades, tribunais, laboratórios, veículos de comunicação e cargos de gestão. Elas empreendem, pesquisam, ensinam, lideram e movimentam a economia.
Mas existe uma parte dessa história que os números ajudam a enxergar.
Segundo dados divulgados pelo IBGE, referentes a 2022, as mulheres brasileiras dedicavam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e aos cuidados de pessoas, enquanto entre os homens esse tempo era de 11,7 horas.
É uma diferença que diz muito.
Porque a mulher conquistou o direito de trabalhar fora, mas nem sempre conquistou o direito de dividir igualmente aquilo que a esperava dentro de casa.
Muitas aprenderam a administrar reuniões, prazos, filhos, escola, alimentação, consultas médicas, compromissos familiares e uma infinidade de pequenas responsabilidades que dificilmente aparecem em um currículo.
Talvez seja por isso que falar sobre a influência feminina no mercado de trabalho seja muito mais profundo do que simplesmente contar quantas mulheres estão empregadas.
É preciso perguntar também: em quais condições elas trabalham?
A Organização Internacional do Trabalho estimou que, em 2023, 708 milhões de mulheres em todo o mundo estavam fora da força de trabalho devido às responsabilidades de cuidado não remunerado. Entre os homens, eram 40 milhões.
Não é falta de capacidade.
Muitas vezes, é falta de oportunidade para exercer essa capacidade.
A economista norte-americana Claudia Goldin, vencedora do Prêmio Nobel de Economia de 2023 por seus estudos sobre a participação feminina no mercado de trabalho, dedicou décadas a investigar justamente essa trajetória.
Suas pesquisas ajudaram a demonstrar que as diferenças profissionais entre homens e mulheres não podem ser compreendidas apenas olhando para formação ou competência. A chegada dos filhos, a divisão das responsabilidades familiares e a maneira como determinadas profissões recompensam jornadas extensas e disponibilidade constante também interferem na trajetória e nos rendimentos das mulheres.
E existe outro aspecto dessa transformação que me chama especialmente a atenção: a mulher madura no mercado de trabalho.
Durante muito tempo, fomos ensinadas a acreditar que existia idade certa para começar, crescer e realizar.
Depois dos 40, parecia que deveríamos apenas conservar aquilo que já havíamos conquistado.
Mas alguma coisa mudou.
Aos 40, 50 ou 60 anos, muitas mulheres estão voltando para a universidade, abrindo empresas, assumindo cargos de liderança, iniciando projetos, mudando de profissão e descobrindo habilidades que talvez tenham passado décadas esperando uma oportunidade.
E isso precisa ser valorizado.
Porque experiência também é qualificação.
Uma mulher que passou anos trabalhando, criando filhos, administrando uma casa, enfrentando perdas, dificuldades financeiras, mudanças profissionais e recomeços desenvolveu capacidades que nenhum certificado consegue medir completamente.
Ela aprendeu a negociar.
Aprendeu a organizar.
Aprendeu a resolver problemas.
Aprendeu, principalmente, a recomeçar.
Por isso, talvez uma das maiores revoluções femininas no mercado de trabalho esteja acontecendo justamente agora: mulheres percebendo que não possuem prazo de validade profissional.
Ainda existem diferenças salariais, barreiras para chegar a determinados cargos e uma distribuição desigual das responsabilidades domésticas. Os avanços são enormes, mas o caminho ainda não terminou.
E talvez nunca tenha sido uma disputa entre mulheres e homens.
A verdadeira conquista está em poder caminhar lado a lado, com as mesmas possibilidades de escolher, crescer, liderar e ser reconhecido pela própria competência.
Quando uma mulher conquista independência financeira, sua conquista raramente termina nela.
Uma filha observa.
Uma amiga se inspira.
Outra mulher cria coragem.
Uma menina cresce entendendo que existem mais possibilidades para seu futuro.
Por isso, a presença feminina no mercado de trabalho representa muito mais do que ocupar uma cadeira em uma empresa.
Representa liberdade de escolha.
E talvez chegue o dia em que não precisaremos mais comemorar o fato de uma mulher comandar uma empresa, administrar uma propriedade, liderar uma equipe ou começar uma nova carreira aos 50 anos.
Será simplesmente normal.
Porque competência não tem gênero.
Experiência não tem prazo de validade.
E sonhos não deveriam ter idade.
Vera Lucia Figueiredo Necher /
Professora, escritora e idealizadora do projeto Rich’s Volleyball Mulheres 40+, em Palmas(PR).@veralucia1234_

Jornal A Folha