A história começa em 1994, nos Estados Unidos.
Um garoto chamado Mike Emme tinha apenas 17 anos.
Quem convivia com ele o descrevia como um jovem querido, divertido, habilidoso. Mike gostava muito de carros e havia restaurado um Ford Mustang 1968.
O carro era amarelo.
Um amarelo forte. Daqueles que chamavam atenção quando passavam pela rua.
Mas existe algo profundamente doloroso nessa história: enquanto todos conseguiam enxergar o amarelo daquele carro, ninguém conseguia enxergar completamente a escuridão que aquele menino carregava por dentro.
Mike morreu por suicídio.
Tinha 17 anos.
E talvez seja justamente isso que, mais de três décadas depois, ainda deveria nos fazer pensar.
Porque sofrimento emocional nem sempre tem rosto de sofrimento.
Às vezes ele vai trabalhar.
Vai para a escola.
Responde “estou bem”.
Brinca com os amigos.
Coloca uma fotografia bonita nas redes sociais.
Dá boa-noite para a família... e entra no quarto carregando uma dor que ninguém conhece.
Depois da morte de Mike, seus familiares e amigos começaram a distribuir mensagens em papéis amarelos, acompanhadas de fitas da mesma cor do Mustang. A ideia era muito simples: se você estiver sofrendo e não souber como explicar, encontre uma maneira de pedir ajuda. A iniciativa se espalhou e deu origem ao Yellow Ribbon Suicide Prevention Program.
E talvez essa seja a parte mais dolorosa dessa história.
Aquilo que Mike não conseguiu pedir para si mesmo passou a ser oferecido a milhares de outras pessoas: ajuda.
Uma fita amarela.
Um pedaço de papel.
Uma mensagem.
E uma possibilidade:
“Eu não estou conseguindo sozinho”.
Olha que coisa...
Passaram-se 32 anos.
Mudaram os carros.
Mudaram as músicas.
Mudou a tecnologia.
Hoje carregamos o mundo inteiro dentro de um telefone.
Conseguimos conversar instantaneamente com alguém que está do outro lado do planeta.
Mas ainda existem pessoas sentadas ao nosso lado que não conseguem encontrar palavras para dizer que estão sofrendo.
Talvez esse seja um dos grandes paradoxos do nosso tempo:
Nunca tivemos tantas maneiras de nos comunicar e, ainda assim, tanta gente não consegue dizer: “Eu preciso de você”.
Por isso Setembro Amarelo não pode ser apenas colocar uma fita amarela no peito.
Não pode ser apenas iluminar um prédio.
Não pode ser uma postagem bonita durante trinta dias e, no primeiro dia de outubro, voltarmos a não enxergar ninguém.
O próprio CVV lembra que a proposta do movimento é justamente quebrar tabus, diminuir o estigma e criar espaço para que as pessoas possam buscar e oferecer ajuda.
Setembro Amarelo deveria nos ensinar a fazer algo muito mais difícil: prestar atenção.
Prestar atenção naquele filho que mudou.
Naquela mãe que anda estranhamente quieta.
No amigo que começou a desaparecer.
Na pessoa que faz todo mundo rir, mas nunca fala sobre ela mesma.
E também naquele que parece ter tudo.
Porque sofrimento não consulta extrato bancário.
Não pergunta profissão.
Não olha número de seguidores.
Não escolhe idade.
E talvez, depois de conhecer a história de Mike, a pergunta mais importante não seja:
“Por que alguém faria isso”?
Talvez a pergunta seja: “Quantas pessoas estão tentando nos mostrar que não estão bem e nós ainda não percebemos”?
Às vezes não precisamos ter a frase perfeita. Não precisamos resolver a vida de ninguém. Às vezes precisamos apenas sentar perto e dizer:
“Eu percebi que você não está bem. Eu estou aqui. Vamos procurar ajuda juntos”.
E permanecer.
Porque existem momentos em que alguém não precisa de uma grande explicação sobre a vida.
Precisa de companhia suficiente para conseguir atravessar aquela noite.
Mike tinha 17 anos. Seu Mustang era amarelo.
E uma história que começou com uma família tentando encontrar algum sentido no meio de uma perda devastadora acabou ajudando a transformar uma cor em um pedido mundial de atenção.
Então, quando você enxergar uma fita amarela neste mês, não veja apenas uma campanha.
Lembre-se de um menino. Lembre-se de uma família.
E, principalmente, lembre-se de quem ainda está aqui.
Talvez exista alguém perto de você sorrindo para todo mundo e travando, silenciosamente, a maior batalha da própria vida.
Pergunte. Escute. Não julgue.
E, se perceber sofrimento intenso, ajude essa pessoa a chegar a atendimento profissional.
Porque talvez a frase que não foi dita há 32 anos ainda precise ser dita por alguém hoje:
“Eu não estou bem. Você pode ficar comigo”?
E talvez a resposta mais humana que possamos oferecer seja:
“Posso. E você não precisa atravessar isso sozinho”.
No Brasil, quem precisa conversar pode procurar gratuitamente o CVV pelo telefone 188, além dos demais canais de atendimento da instituição.
Setembro Amarelo. Que a gente não espere perder alguém para começar a perceber os sinais de quem ainda está aqui.
Chisté, psicólogo, “escritor e palestrante. “Atende através de “vídeo-chamadas, “(49) 9 9987 9071.

Jornal A Folha