Produzir soja e milho não se resume ao manejo da lavoura: envolve lidar com juros altos, energia cara, combustíveis reonerados e pedágios restabelecidos. Uma espécie de “tarifaço”, que atravessa o cotidiano rural como uma sombra invisível sobre cada saca colhida, da qual o reflexo se estende ao comércio local, afinal as receitas do agronegócio refletem sobre os negócios na cidade.
De um lado, o campo segue pujante, com produtividade crescente graças a tecnologias de sementes, máquinas e armazenagem, além do trabalho incansável do produtor.
De outro, os custos não param de escalar. Apenas a título de exemplo a aplicação da bandeira vermelha da energia adiciona milhares de reais à conta dos produtores de leite, que geram receitas aos pequenos e médios produtores.
Já na agricultura, o diesel pressiona desde o cultivo (tratores, colheitadeiras) até o frete de cada caminhão rumo a Paranaguá, dos quais “ganhamos” um acréscimo com os pedágios recém retomados consomem fatia adicional do lucro já comprimido.
Segundo dados recentes do Deral, as projeções para 2025/26 sugerem uma colheita recorde: soja com 22,05 milhões de toneladas previstas, avanço de 4,2%, e milho primeira safra com 3,22 milhões de toneladas, alta de 5,5% em relação ao último ciclo1.
Do ponto de vista comercial, os contratos futuros que a base de preços é apontada para uma leve recuperação de aproximadamente 5% tanto para soja quanto para milho — mas dentro de um contexto onde o aumento da produção e as margens apertadas podem exigir mais disciplina estratégica do produtor.
Não é a primeira vez que o produtor rural enfrenta ventos contrários. A história do agronegócio é feita de resiliência. Mas agora há uma diferença: a sobrevivência não depende apenas da força do trabalho no campo, mas da habilidade em gerenciar finanças, contratos e estratégias de comercialização.
Em outras palavras, colhe-se tanto nos talhões quanto nas planilhas. Cercar-se de profissionais qualificados de outras áreas que até então não era comum, agora é o que será o divisor no aumento do resultado positivo da operação, como contadores e até assistência jurídica, ante ao emaranhado legal que cada vez mais pressiona as atividades do agro, especialmente o ambiental.
É natural que haja receio. Afinal, ninguém gosta de ver margens minguando. Mas, como em tantas fases da vida econômica, quem se adapta primeiro tende a resistir melhor. O produtor que organiza caixa, planeja a operação com antecedência e não fica refém de um mercado financeiro que pressiona o custo do investimento e aprende a travar preços no mercado futuro estará um passo à frente dos que apenas esperam “o bonde passar”.
No fim, fica uma lição simples, ainda que incômoda: não basta colher grãos, é preciso colher estratégias. E se o presente traz desafios de ordem operacional e financeiro, o futuro recompensa os que compreendem que no agronegócio moderno o verdadeiro poder não está apenas na produtividade, mas na margem preservada.
Everton Alves da Cruz
Empresário, Advogado da
Cruz & Langer especialista em compliance corporativo.
O campo: entre colheitas fartas e bolsos apertados
Se em outros tempos o desafio do agricultor não só do Sudoeste do Paraná mas de todo o Brasil produtivo, era prever a chuva e preparar a terra, hoje a realidade é mais complexa.
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