Influenciar, em sua essência, deveria significar inspirar, conduzir, somar, transformar. Mas, em muitos casos, o que vemos hoje são pessoas que usam o alcance que têm para alimentar uma cultura de ostentação vazia, de comportamentos irresponsáveis e de valores distorcidos.
O caso recente envolvendo o autointitulado “Gato Preto” e sua namorada, Bia Miranda, expõe com brutal clareza esse problema. Um casal que, seguido por milhões, não transmite nada além de jogos de azar, bebedeiras e ostentação superficial. E, ainda mais grave, um casal envolvido em um acidente no qual feriram um pai e seu filho após avançarem um sinal vermelho em alta velocidade. A reação deles? Não foi arrependimento, não foi solidariedade, não foi empatia. Foi desdém, agressividade e deboche público — chegando ao ponto de justificar o ato dizendo: “quem nunca tomou umas a mais e furou o sinal vermelho?”.
A pergunta que ecoa é: o que leva milhões de pessoas a aplaudir, seguir e dedicar tempo a esse tipo de conduta?
Por que a sociedade tem se encantado com a vida vazia de quem não oferece absolutamente nada de bom? É um sintoma perigoso: estamos banalizando comportamentos tóxicos e normalizando atitudes criminosas como se fossem meros “erros de percurso”.
Todo seguidor é, de certa forma, cúmplice. Não porque deseja o mal, mas porque alimenta a relevância de pessoas que nada têm a entregar, além de um exemplo desastroso. Cada curtida, cada comentário, cada compartilhamento é como um voto de confiança que dá palco a quem não deveria ter microfone.
Enquanto isso, quantas vozes realmente transformadoras passam despercebidas? Quantos profissionais sérios, quantos artistas verdadeiros, quantos educadores, quantos trabalhadores do bem não têm sequer uma fração da atenção que entregamos a influenciadores que fazem da irresponsabilidade um espetáculo?
A reflexão é urgente: em quem você tem permitido que influencie sua vida?
A quem você dá palco? Porque influenciar não é só sobre quem fala, mas também sobre quem ouve. Se continuarmos aplaudindo o vazio, continuaremos construindo uma sociedade cada vez mais rasa, sem referências sólidas, sem valores que sustentem a vida em comunidade.
Precisamos resgatar o discernimento. Precisamos parar de confundir fama com relevância, audiência com valor, barulho com verdade. A vida não pode ser guiada por quem não tem nada a oferecer além de ostentação e irresponsabilidade.
Talvez o maior questionamento que fica seja este: o que diz sobre nós, como sociedade, o fato de que pessoas como essas acumulam milhões de seguidores, enquanto a ética, a empatia e o respeito seguem invisíveis nos algoritmos?
Júnior Chisté, psicólogo,
escritor e palestrante.
Atende através de
vídeo-chamadas,
(49) 9 9987 9071.
