Ela entrou na sala da diretoria. E ele falou: Marina, nós vamos precisar nos despedir de você. A voz de seu Henrique soava com aquela falsa doçura paternal que ele usava sempre que queria passar a perna em alguém.
Reclinou-se na poltrona de couro, juntou as mãos sobre a barriga e completou:
A empresa precisa de uma nova energia, um olhar mais jovem. Você entende, não é? Olhei para ele: o rosto bem cuidado, a gravata cara que eu mesma o ajudara a escolher para a última festa de fim de ano da empresa. Entender? Claro que entendia. Os investidores já falavam em auditoria independente, e ele precisava se livrar da única pessoa que sabia de tudo: eu.
Entendo, respondi calma. A nova energia é a Carla da recepção? Aquela que confunde débito com crédito, mas tem vinte e dois anos e dá risada de todas as suas piadas? Ele fez uma careta. Não é a idade, Marina. É que… o seu jeito é um pouco ultrapassado. Precisamos de um avanço, de um “salto”. Esse “salto” ele repetia fazia meses. Eu havia construído aquela empresa com ele desde a primeira sala apertada e mofada. Agora que tudo brilhava, eu já não combinava com o cenário. Tudo bem, me levantei, gelada por dentro. Quando devo esvaziar minha mesa?Ele esperava lágrimas, súplicas, drama. O que encontrou foi tranquilidade.
Hoje mesmo, se quiser. O RH já está preparando os papéis. A indenização vai estar toda certa. Na porta, voltei-me para ele: Sabe de uma coisa, Henrique? Você tem razão. A empresa precisa mesmo de um salto. E eu vou providenciar isso. Ele apenas sorriu, sem entender. No salão, o clima era pesado. Os colegas desviavam o olhar. Minha caixa de papelão já estava ali, pronta. Fui guardando minhas coisas: a caneca favorita, as fotos dos filhos, revistas de gestão. No fundo, coloquei um ramalhete de girassóis que meu filho universitário havia me dado no dia anterior.
Então, tirei o que tinha preparado: doze rosas vermelhas, uma para cada colega e uma pasta preta de elástico.
Passei pelas mesas entregando flores. Agradeci com voz baixa. Alguns me abraçaram, outros choraram. Foi como me despedir de uma família. Só a pasta restou. Entrei no gabinete dele sem bater e deixei em cima da mesa. O que é isso? Ele perguntou. Respondi Meu presente de despedida. Aí dentro estão todos os seus “saltos” dos últimos dois anos. Com datas, notas e transferências. Vai achar… interessante. Saí sem olhar para trás.
Às onze da noite o telefone tocou. Era ele. Marina… eu vi a pasta… você sabe o que isso significa? Sei muito bem. Não são suspeitas, são provas. Assinaturas, contratos, extratos bancários. Ele disse: Se isso vier a público, a empresa vai acabar… Respondi: A empresa? Ou você?
Ofereceu-me o cargo de volta, até uma promoção. Apenas sorri:
Não, Henrique. Não há volta. Na manhã seguinte, quem me ligou foi Pedro, o rapaz da TI. Marina, ele entrou no servidor de madrugada para apagar coisas. Mas eu fiz cópias espelho. Está tudo salvo. Inclusive e-mails de propina, transferências para contas no exterior… quase me sentei no chão. Era o xeque-mate. No mesmo dia, Carla, a tal “nova energia”, apareceu em minha casa com uma das rosas, já murcha, embrulhada num guardanapo. Estava chorando: Me perdoe, Marina. Eu não sabia… hoje ele quis que eu assinasse um relatório falso para os investidores. Eu fiquei com medo… Servi café, abracei a menina e pensei: até dentro da fachada dele já havia rachaduras.
Dois dias depois, seu Henrique apresentou carta de demissão “por motivos pessoais”. Os investidores não engoliram a desculpa. Uma semana depois, me chamaram: - Marina, queremos você como diretora. Voltei para a empresa. Nas mesas, as rosas que eu havia dado ainda estavam ali, secas. Os colegas bateram palmas. Levantei a mão: Chega de cerimônia. Temos trabalho. O futuro começa agora. E foi nesse momento que entendi: me demitiram por ter 55 anos. Mas foi exatamente a minha idade que me deu a força, paciência e experiência para resistir, lutar e vencer.
Acaba de entrar em cena o que tenho debatido em minhas palestras. No mundo de Inteligência Artificial, com visão de Inteligência Emocional, falamos da longevidade humana. No caso de Marina, a juventude estava agora ao seu lado. E aprendia com ela que até uma derrota pode se transformar numa vitória.
Pense nisso, um forte abraço e esteja com Deus!
Gilclér Regina palestrante de sucesso, escritor com vários livros, CDs e DVDs que já venderam milhões de cópias e exemplares no Brasil, América, Ásia e Europa. Clientes como General Motors, Basf, Bayer, Banco do Brasil, Grupo Silvio Santos, entre outros... compram suas palestras. Experiências no Japão, Portugal, Estados Unidos, entre outros países... 5000 palestras realizadas no país e exterior. Atualmente no top 10 dos livros mais vendidos no ranking do Google.

Jornal A Folha