Em tempos em que a desinformação é tão acessível quanto a informação, o ato de medicar-se por conta própria tornou-se prática comum. Contudo, a visita que realizamos ao Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), de Palmas, evidenciou um cenário mais delicado: a automedicação entre dependentes químicos idosos, com histórico de alcoolismo e, em sua maioria, comprometimentos psíquicos. Essa experiência nos revelou não apenas os riscos práticos da automedicação, mas também as consequências de um sistema que ainda falha em acolher cidadãos em situação de vulnerabilidade.
Ao chegarmos, fomos acolhidos pela psicóloga da unidade e conduzidos a uma roda de conversa com três usuários do serviço. A baixa adesão à atividade (esperava-se 20 pessoas) foi justificada pela condição climática e pelo distanciamento do CAPS (alguns pacientes moram no interior). À medida que explicávamos o conceito de automedicação, dois dos participantes interagiram com entusiasmo, trazendo relatos pessoais - ainda que, por vezes, incoerentes. Um deles mencionou, por exemplo, ter lido na Internet que duas colheres de água sanitária seriam capazes de “limpar o organismo”. Outro contou que, certa vez, ingeriu Merthiolate com água oxigenada para tratar dores estomacais, afirmando que nunca mais teve problemas digestivos desde então.
Esses relatos, embora alarmantes, não podem ser reduzidos ao rótulo de “ignorância”. Eles denunciam a carência de políticas efetivas de educação em saúde, de assistência farmacêutica personalizada e de estratégias de promoção do uso racional de medicamentos - todas ações previstas, mas nem sempre praticadas, no Sistema Único de Saúde. Fica evidente que a informação por si só não basta. É necessário torná-la acessível, compreensível e contextualizada à realidade de cada indivíduo, principalmente dos que já enfrentam múltiplas barreiras: pobreza, baixa escolaridade, doenças mentais e histórico de dependência química.
Ao longo da atividade, abordamos os riscos do uso indiscriminado de anti-inflamatórios (AINEs), antiácidos, anti-histamínicos, psicotrópicos e ansiolíticos. Explicamos as possíveis interações medicamentosas e os impactos negativos de medicamentos mal administrados. Em seguida, aplicamos dinâmicas com embalagens de medicamentos e leitura de uma história em quadrinhos educativa, o que incentivou reflexões e contribuições espontâneas dos participantes.
Apesar das limitações cognitivas de alguns presentes, o retorno foi positivo. Percebemos interesse, curiosidade e respeito por parte deles.
Diante dessa experiência, reforçamos a opinião de que o farmacêutico deve ultrapassar o balcão da farmácia e se posicionar como educador em saúde. Não basta garantir o acesso ao medicamento, é preciso assegurar o entendimento e o uso racional. Mais do que nunca, é essencial que o profissional da saúde compreenda o contexto de vida do paciente, suas crenças, seu nível de instrução e sua relação histórica com o uso de substâncias.
A automedicação, sobretudo em populações vulneráveis, não é apenas uma escolha pessoal. É reflexo de falhas estruturais, de um sistema ainda desigual e de lacunas na formação em saúde pública.
Ana Carolina Carneiro
Angela Gomes de Oliveira
Camile Christofoli
Rafaella Sampaio Muller
Leonardo Machado de Lima
Estudantes do Curso de Farmácia do Instituto Federal do Paraná (IFPR) Campus Palmas.
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Jornal A Folha