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Farmacocinéfilos: desenvolvimento científico explorado na ambientação do filme Frankenstein, de Guilhermo del Toro

O filme Frankenstein é uma adaptação do livro “Frankenstein, ou, o Prometeu Moderno”, de Mary Shelley, publicado em 1818, de forma anônima, sendo que a sua edição revisada e assinada foi publicada somente em 1831.

Farmacocinéfilos: desenvolvimento científico explorado na ambientação do filme Frankenstein, de Guilhermo del Toro
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O livro conta a história de um cientista, Victor Frankenstein, que, na tentativa de vencer a morte, cria um ser a partir de cadáveres. O monstro realmente é imortal, mas, longe de ser uma vantagem, isso será a ruína de ambos, criador e criatura. 
O filme apresenta algumas distorções em relação ao romance original, mas isso sempre é esperado em se tratando de adaptações cinematográficas. No entanto, há um ponto interessante: o desenvolvimento científico e tecnológico do início do séc. XIX, que reuniu as condições de produção do romance, enquanto um livro de ficção científica.
A autora do livro, Mary Shelley, certamente estava a par das discussões científicas de seu tempo. E apesar de hoje parecer uma época muito “atrasada”, quem viveu naquele tempo julgava testemunhar o ápice da civilização, o que em certa medida é verdade, já que o homem do seu tempo sempre acredita ser o representante da supremacia civilizatória.
O mundo no séc. XIX era o resultado das transformações que ocorreram nos séculos predecessores. Entre os séc. XIV e XVII, o Renascimento questionou muitas das bases em que a sociedade estava sedimentada, trazendo o antropocentrismo, o racionalismo e o cientificismo (o que permitia uma explicação dos fenômenos pela observação, lógica e experimentação). O Iluminismo, movimento do séc. XVIII (o “Século das Luzes”), defendia o uso da razão sobre o da fé. A busca frenética pelo conhecimento levou alguns iluministas a registrarem todo o conhecimento já produzido na Enciclopédia (1751 - 1780). Outros acontecimentos também colaboraram para modificações profundas na estrutura social, política e econômica, como a Revolução Francesa (1789), marco divisório entre a Idade Média e a Idade Moderna, e a Revolução Industrial (metade do séc. XVIII). 
Frankenstein tem como enquadramento o desenvolvimento científico do séc. XIX, sobretudo nas ciências biológicas. A Anatomia já tinha se desenvolvido, contando com pesquisadores que violavam sepulturas para conhecer detalhes do corpo humano. Vesalius, o “pai da Anatomia moderna”, publicou, em 1543, “De Humani Corporis Fabrica”. Com o conhecimento anatômico relativamente bem desenvolvido, agora era preciso entender como o corpo funcionava. É nesse ponto que nasce a Fisiologia, ciência que estuda a função dos diferentes órgãos. No séc. XVII, várias observações já tinham sido publicadas, como a circulação sanguínea, explicada por William Harvey na sua obra “Exercitatio Anatomica de Motu Cordis et Sanguinis in Animalibus”, de 1628.
Numa das primeiras cenas do filme, o pai de Victor Frankenstein, que também se chamava Victor, aplica uma espécie de avaliação oral ao seu filho. O pai pergunta sobre o peso médio do coração do homem e da mulher (dado produzido pelos anatomistas). Depois, pede para seu filho indicar a função da válvula tricúspide e, na sequência, pede para descrever o sistema circulatório, “como enunciado em “De Motu Cordis”, a obra de Harvey.
Outras cenas mostram Victor já adulto, no Royal College of Medicine, defendendo a sua tese de que seria possível vencer a morte. Para isso, usa um modelo composto pela cabeça de um cadáver ligada ao braço de outro. Victor liga o sistema a uma pilha e com a eletricidade faz o modelo se mexer. A pilha, como mostrada no filme, é a pilha de Daniell, criada em 1836, e evidencia um dos avanços da Química. A arquitetura da sala também é muito representativa das primeiras salas de aula de Anatomia, em formato de anfiteatro (por isso chamadas de teatro anatômico), em que o professor dissecava corpos em uma mesa central, acompanhado por estudantes sentados em volta nas arquibancadas. Enfim, Frankenstein é fruto de sua época e reflete o desenvolvimento científico de seu tempo, no exato ponto em que a ciência se encontrava (ou que vislumbrava se encontrar).

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Rodrigo Batista de Almeida – Professor do Instituto Federal do Paraná.  

Bruno Lima

Publicado por:

Bruno Lima

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