O livro conta a saga de um cientista, Victor Frankenstein, que busca criar um ser dotado de imortalidade. Neste artigo, vou explorar como uma ideia se concretiza na forma de um projeto de pesquisa.
Inicialmente, é preciso ter uma motivação. Victor era motivado pelo desejo de superar a morte, devido a um acontecimento trágico, a morte de sua mãe. Mas não basta uma ideia para se iniciar um projeto, ainda que o pesquisador se encontre profundamente motivado. Era preciso delinear o seu projeto, especificando o objetivo, a metodologia, os materiais requeridos, o orçamento etc. Victor já tinha obtido resultados preliminares, com a movimentação de um modelo anatômico criado com partes de um cadáver, que ligado a uma pilha, se movimentava. Esses resultados foram apresentados em uma sessão pública (uma espécie de conferência), no Royal College of Medicine, sendo também publicados na forma de um artigo científico em uma famosa revista científica da área médica (The Lancet).
Harlander, o tio da noiva de seu irmão, conhece Victor e o parabeniza pela sua pesquisa, que tomou conhecimento pelo artigo publicado. Harlander comenta sobre as Tábuas de Evelyn (preparações anatômicas do século XVII, com nervos e vasos sanguíneos precisamente dissecados e cuidadosamente fixados em um suporte de madeira), enfatizando o sistema linfático, e isso vai ser usado estrategicamente por Victor na sua pesquisa, como veremos. Harlander se oferece para financiar o projeto de Victor.
Com o dinheiro garantido, é preciso pensar em termos práticos. É aí que Victor organiza o seu laboratório, reformando uma antiga propriedade. Como ele precisava de eletricidade (e vivia no início do século XIX), instala um para-raios de prata ligado a fios que alimentariam uma bateria. Os corpos foram obtidos de soldados mortos em uma batalha.
No entanto, como realmente criar um novo ser? A simples aplicação de eletricidade em um corpo poderia, no máximo, produzir um movimento espasmódico, mas não seria o suficiente para devolver a vida. É aí que Victor, durante um banho, tem uma epifania, intuindo que se colocasse a bateria sob o sistema linfático alcançaria o resultado pretendido. Essa cena faz relação intertextual com a história de Arquimedes, matemático grego que recebeu o desafio de um rei, que desejava saber o volume de ouro em sua coroa. Arquimedes sabia que poderia determinar a densidade da coroa e compará-la com a densidade do ouro. Mas como medir o volume da coroa sem derretê-la? A resposta veio em um banho. Ao entrar na banheira, percebeu a elevação do nível da água e pensou que poderia medir o volume da coroa mergulhando-a em água e calculando o volume deslocado. Diz a lenda que Arquimedes saiu pelas ruas, nu, gritando “Eureka” (“Encontrei!”).
Na sequência do filme, Harlander finalmente revela o que quer em contrapartida: “Quando nós dermos vida ao nosso Adão, eu quero ser colocado nesse corpo perfeito. Essa será a retribuição pelo meu generoso investimento na sua pesquisa”. Harlander tinha sífilis, o que, no século XIX, era uma sentença de morte. Victor não aceita essa imposição e isso mostra o quão importante é definir, de antemão, com toda a equipe envolvida em um projeto de pesquisa, como se dará a contrapartida, bem como a repartição de benefícios.
Enfim, Victor consegue criar uma criatura imortal, mas isso se torna um problema. É aí que entra outro ponto fundamental em uma pesquisa científica: a responsabilidade ética pelos resultados. Victor se vê em um dilema: “Buscando a vida, criei a morte. Nunca considerei o que viria depois da criação. Era vazia de significado. E isso me atormentava”.
Por fim, é muito interessante como o filme explorou todos esses aspectos que envolvem um projeto de pesquisa, ainda que numa narrativa superlativa, tão comum no gênero de ficção científica. O filme se tornou uma ótima oportunidade para poder discutir alguns aspectos da ciência nem sempre levados a público.
Rodrigo Batista de Almeida – Professor do Instituto Federal do Paraná.

Jornal A Folha