Lô Borges foi um dos mais importantes músicos brasileiros, com intensa produção artística desde os anos 1970. Com Milton Nascimento, foi um dos fundadores do Clube da Esquina, grupo de músicos que trouxe uma sonoridade totalmente inovadora no cenário brasileiro. Em 1972, houve o lançamento do disco Clube da Esquina. Esse álbum foi tão impactante na música brasileira que foi incluído, em diferentes ocasiões, entre os dez maiores álbuns de todos os tempos já lançados no Brasil. Por essa herança, Lô Borges tem o meu eterno agradecimento.
Mas o que me intrigou no processo de morte do Lô Borges, além da precocidade com que isso se efetivou, foi a causa anunciada, primeiramente para a sua internação e, na sequência, para justificar o falecimento.
Internado no dia 17 de outubro, foi informado que o motivo para a hospitalização foi uma intoxicação por medicamentos. No hospital, foi para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI), precisou de ventilação mecânica e fez uma traqueostomia. Durante a estada no hospital, o seu quadro se agravou, o que o levou à morte.
Há pouquíssimas informações sobre as circunstâncias envolvidas na intoxicação por medicamentos que foi mencionada e usada como motivo para a sua internação. No vácuo de dados, resta especular sobre o que pode ter ocorrido e, o que é mais fácil, generalizar o problema para acender o alerta sobre o potencial lesivo dos medicamentos.
Em se tratando de intoxicação medicamentosa, o cenário brasileiro é catastrófico, deixando mais de 14 mil pessoas hospitalizadas, em 2022. E isso não é de todo estranho, haja vista a relação abusiva que o brasileiro mantém com os medicamentos. Há muitos problemas: automedicação, uso de medicamentos falsificados ou contrabandeados (em que a cadeia de frio é interrompida, contribuindo para a deterioração do produto), uso inadequado de plantas, uso de medicamentos veterinários em humanos, uso de medicamentos em animais sem o acompanhamento de um médico veterinário, acesso de crianças ao estoque domiciliar de medicamentos, interações, intoxicações, tentativas de suicídio, troca de medicamentos, não obediência às recomendações médicas etc.
Para começar a discutir o problema, precisamos diferenciar alguns termos que geralmente estão relacionados à intoxicação medicamentosa, mas que possuem significados totalmente distintos entre si, como “efeitos adversos”, “interações”, “sobredosagem” e “intoxicação”. Efeitos adversos (também chamados de efeitos colaterais ou reações adversas) são reações esperadas para uma parcela minoritária da população de usuários de um medicamento. Interações são reações decorrentes do uso simultâneo de dois ou mais produtos. Sobredosagem é o que ocorre quando se usa doses superiores às máximas indicadas em bula. E intoxicação está relacionada a sobredosagem e descreve as reações que podem ocorrer quando se usa doses excessivas de um produto farmacêutico.
Precisamos intervir para que essa situação seja revertida. Simples analgésicos podem levar a graves complicações no fígado, nos rins e na mucosa gástrica. Anticoncepcionais com cigarro é uma mistura praticamente fatal. Medicamentos usados juntamente com álcool podem ou perder o efeito ou ter a ação potencializada, aumentando os riscos de intoxicação. Alguns medicamentos em idosos podem precipitar queda; e uma queda em idoso por levar à morte em até dois anos. Enfim, são muitos os problemas e, portanto, o uso de um medicamento deve acontecer somente sob prescrição de um profissional de saúde. Como diz a música de Lô Borges, sonhos não envelhecem, mas, infelizmente, e em decorrência do uso inadequado de medicamentos, podem morrer.
Rodrigo Batista de Almeida Professor do Instituto Federal do Paraná
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Jornal A Folha