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Sexta-feira, 08 de Maio 2026
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“Deus faz muito em mostrar”: reminiscências da Teoria das Assinaturas no caso da polilaminina, “a proteína de Deus”

Antigamente, havia uma crença popular de que Deus havia deixado marcas na natureza que deveriam ser seguidas na busca pela cura e que ficou conhecida como Doutrina das Assinaturas ou Teoria das Assinaturas.

“Deus faz muito em mostrar”: reminiscências da Teoria das Assinaturas no caso da polilaminina, “a proteína de Deus”
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Dessa forma, algumas características morfológicas de algumas plantas indicariam a sua utilidade terapêutica. Frutos com formato de um rim, como o feijão, seriam úteis para as moléstias renais. A noz, com formato semelhante a um cérebro, serviria para doenças mentais. A pariparoba, com folhas em formato de coração, poderia ser empregada para as doenças cardíacas, assim como o tomate, que se assemelhava, em certa medida, ao coração, por sua cor vermelha e suas várias cavidades internas. Plantas que, por ventura, produzissem uma seiva avermelhada seriam indicadas para problemas no sangue. Se, por outro lado, a seiva fosse amarela, isso era um indício da utilidade para problemas na bile. E por aí vai. 
Apesar de a Teoria das Assinaturas ter sido muito difundida por Paracelso, no século XVI, a ideia remonta há tempos muito mais antigos e sempre fascinou a humanidade. A possibilidade de uma pista deixada por Deus poderia encantar até os mais céticos.
Muito tempo depois da popularização da Teoria das Assinaturas, o mundo mudou e, no século XX, houve um grande desenvolvimento da indústria farmacêutica, com várias classes farmacológicas sendo lançadas, como antibióticos, anti-hipertensivos, anti-inflamatórios, anestésicos, anticoncepcionais, medicamentos para úlcera gástrica, asma, diabetes, alergia, enfim, uma enorme variedade de produtos farmacêuticos que conseguem cobrir boa parte dos problemas de saúde que afligem a humanidade. E a explicação para o efeito dos medicamentos também evoluiu no século XX, sendo que a ação farmacológica passa a ser entendida como resultado da interação entre a molécula do fármaco e a do receptor farmacológico, geralmente localizado na membrana plasmática das células.    
Mas nada é tão velho que não possa ressurgir, em um novo contexto e com uma nova roupagem, e ainda ser capaz de surpreender (a moda, que reflete o espírito de uma época, está aí para não me deixar mentir). Agora, em 2026, em pleno século XXI, a Teoria das Assinaturas voltou com tudo e a bola da vez é a polilaminina, substância promissora no tratamento de lesão medular. Atualmente, há, em curso, um estudo clínico de fase I com a polilaminina. Acredita-se que, em poucos anos, a substância passe por todas as fases exigidas para o registro (fases I a III) e, caso se comprove a sua eficácia e a sua segurança em seres humanos, poderá se tornar um novo medicamento.
Uma das características dessa molécula que mais impactou as pessoas leigas é o seu formato em cruz. Cada uma das pontas da estrutura em cruz consegue se ligar a outras moléculas ou com as próprias células do corpo, e é essa propriedade que garante que os tecidos se desenvolvam, orientando a disposição de diferentes células em um tecido, tornando-o funcional.
No entanto, esse formato em cruz é apenas um detalhe da organização estrutural da polilaminina. Mas bastou isso para batizarem essa substância de “a proteína de Deus”. Acaso tivesse forma de chifre ou de tridente, seria do diabo?
Precisamos, portanto, nos situarmos no tempo e, finalmente, tomarmos consciência de que vivemos no século XXI. Todo o progresso científico (da Farmacologia, da Bioquímica etc.) alcançado, sobretudo a partir do século XX, precisa servir para nos afastarmos de crendices. Acreditar que Deus colocou sinais irrefutáveis em uma planta ou, no caso da polilaminina, na sua molécula, acerca da sua utilidade terapêutica é retroceder séculos na história da humanidade. Portanto, falar que a polilaminina, por ter formato em cruz, seria uma molécula divina é tão somente uma releitura da Teoria das Assinaturas, com a única novidade de essa concepção supersticiosa sobre os agentes terapêuticos ter sido, agora, empregada numa escala muito menor, na ordem dos nanômetros.

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Rodrigo Batista de Almeida
Professor do Instituto Federal do Paraná (IFPR) Campus Palmas.

Bruno Lima

Publicado por:

Bruno Lima

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